SOMÁLIA
E SUAS MIL PRAGAS
Vitor
Pinto
Escritor.
Analista internacional (10/2022)
Seca,
tsunami e os gafanhotos
Desta
feita é a seca. A pior dos últimos 40 anos. A Somália —
país mais oriental de toda África, com uma área equivalente às dos estados de
Minas Gerais e Espírito Santo juntos (637,6 mil km2) e uma população de 16,7
milhões de habitantes, pouco inferior à do Rio de Janeiro —, tem um clima
tropical com temperaturas rondando os 30 graus o ano todo e duas estações
chuvosas: a primeira, mais intensa, em abril e maio; a segunda que deveria
começar neste outubro estendendo-se até meados de dezembro. As chuvas até conseguem acumular-se no céu em alguns
finais de tarde, mas já se sabe que novamente não virão, da mesma forma que não
dão o ar de sua graça desde meados de 2020. Uma das nações mais pobres do
mundo, ainda não superou a grande fome de 2011 quando morreram 260 mil pessoas
nem os efeitos do tsunami formado pelo oceano Índico desde a Indonésia em 2004.
Muito menos os somalis esquecem a mais recente e terrível praga de gafanhotos
do deserto. Como não haviam feito no último quarto de século, os insetos, do
tamanho do dedo médio da mão e em nuvens de até mil quilômetros (cada uma com
pelo menos 40 milhões gafanhotos) formadas em áreas inacessíveis no interior da
Líbia, atravessaram o mar Vermelho e devoraram as plantações também na Etiópia
e no Quênia para desespero das populações e de agências internacionais que tentavam
combatê-las a base de deltametrina e outros agrotóxicos de largo espectro (sem
dúvida prejudiciais à fauna e à flora borrifadas).
Estima-se
que já existem 7,6 milhões de pessoas necessitando assistência humanitária – metade
das quais são crianças de baixa idade – e a Unicef,
agência da ONU, alerta para níveis de fome na Somália nunca vistos no último
meio século. As Unidades de Saúde atualmente admitem um caso de desnutrição
infantil por minuto. mas muitos não conseguem acesso ao atendimento devido ao
bloqueio radical promovido pela al-Shabaab, organização terrorista ligada à
Al-Qaeda.
A
região do Chifre da África convive com uma tradição milenar. Conta a lenda
cristã que o faraó egípcio, arrependido por ter autorizado os escravos israelitas
a marcharem para a terra prometida, perseguiu-os até as margens do Mar Vermelho,
providencialmente aberto apenas para dar passagem aos liderados por Moisés mas que,
de imediato, voltou a fechar-se afogando as tropas do Faraó. Por certo os
atores dessa fábula não imaginavam que seu padrão de crueldade, submissão e
vingança se eternizaria, repetindo-se séculos afora e hoje, em pleno século
XXI, ainda dividiria os homens fazendo-os trucidar uns aos outros com a
diferença de que, agora, o fazem com armas muito mais sofisticadas.
Chifre
da África, comércio e pirataria somali
O Chifre ou Corno da África, no nordeste do
continente, compreende 4 países: Eritréia, Somália, Djibouti e Etiópia, mas há
autores que ainda incluem em sua área partes de Sudão, Sudão do Sul, Quênia e
Uganda. Sua importância estratégica é inegável. Com Península do Sinal, o Golfo de Aqaba e o Canal
de Suez ao norte e o corredor de Bab-el-Mandeb e o Golfo de Aden ao sul, de
fato o Mar Vermelho – com Jordânia, Arábia Saudita, Yemen de um lado; Egito, Eritréia,
Djibouti, Somália de outro – é a via de comunicação por excelência entre Ásia e
África. No desembocar justo em frente ao Yemen e ao Djibouti, o estreito de
Bab-el-Mandel é o ponto mais crítico de todo o comércio marítimo internacional.
Por ele cruzam bilhões de dólares nos 5 milhões de barris de petróleo que a
cada dia vão ou vêm em direção à Europa.
Isso
torna o estreito e seus arredores uma das áreas mais militarizadas do planeta.
Um bom exemplo é o pequenino Djibouti, ex-Somália Francesa, que se tornou independente
em 2007 e hoje é o país com mais bases estrangeiras em seu território: dos EUA,
China, França, Itália, Japão, Arábia Saudita, além de várias instalações
menores de outros interessados como a Turquia (fortemente presente no Sudão e
em Mogadíscio) e os Emirados Árabes Unidos que ocupam múltiplas posições na
região. Bab-el-Mandeb tem apenas 32 km de largura e é a rota mais curta entre o
Oceano Índico e o Mediterrâneo, mas para evitá-lo os barcos teriam de fazer a
volta pelo Cabo da Boa Esperança. Para uma visão mais ampla leia o texto “Entre
a cooperação e a rivalidade intercontinental” de Nádya Silveira (https://pucminasconjuntura.wordpress.com/2018/11/07/entre-a-cooperacao-e-a-rivalidade-intercontinental-a-travessia-do-mar-vermelho-pela-militarizacao/).
Cargas
bilionárias e desprotegidas chamaram a atenção de piratas que em pequenas e
ágeis embarcações motorizadas (depois, com a profissionalização dos saques, já
com apoio de grandes navios) expandiram-se entre 2008 e 2012 quase
inviabilizando a travessia do Índico em frente à Somália. No seu auge, em 2011
houve 237 ataques a navios pela pirataria somali, que só cedeu diante da Task
Force 151 constituída por uma parceria de 33 nações incluindo os EUA e da
Operação Atalanta da União Europeia com base na Resolução 1816 da ONU
permitindo ações internacionais em águas territoriais somalis. Além das cargas,
os piratas especializaram-se na obtenção de resgate pelos reféns que passavam
longos períodos detidos principalmente em Puntland, um estado semiautônomo no
norte do país, na prática imune ao controle federal.
Terra
do caos
A
República da Somália foi criada em 1960 pela junção da Somalilândia Britânica ao
norte com o então protetorado administrado pela Itália no sul e durou até 1969 quando
o 2º Presidente, Omar Ali Sharmarke, eleito democraticamente, foi assassinado a
tiros por um guarda-costas viabilizando o golpe de Estado comandado pelo general
Mohamed Siad Barre que implantou um regime marxista de partido único apoiado
pela União Soviética, por sua vez derrubado por uma revolta de líderes tribais em
janeiro de 1991. Desde então e até muito recentemente o país ficou à deriva,
sem um governo central, à mercê do fluido poder dos clãs, de milicias islamitas
e de quadrilhas de malfeitores. De imediato, a Somalilândia autodeclarou sua
independência que, embora nunca reconhecida internacionalmente, garantiu-lhe a
administração de um território de 284,9 mil km2 que corresponde a 45% da área
total da Somália, possuindo moeda e forças armadas próprias. Em 1998 o estado
de Portland (ao lado da Somalilândia) também realizou suas próprias eleições e
decidiu tornar-se autônomo, mas permanecendo como parte da Somália. Curiosamente,
ambos são politicamente bem mais estáveis que a pátria-mãe, embora da mesma
forma assolados por altíssimos níveis de pobreza. As grandes potências e os
vizinhos não lhes dão reconhecimento por temor de que isso estimule iniciativas
similares.
Instabilidade
permanente, resquícios de pirataria e a presença violenta da Al-Shabbab (ligada
à Al Qaeda) que ainda controla vastas áreas no centro e nas zonas rurais e quer
implantar um estado islâmico wahabi (ultraconservador) além de ameaçar com o
fechamento do estreito de Bab-al-Mandel, tem provocado um vai e vem de tropas norte
americanas e da ONU, ambas exaustas por lidar com uma realidade sem presente
nem futuro.
Fruto
do caos geral, em 2006 explodiu a Batalha de Mogadiscio, com a Aliança para a
Reestruturação da Paz apoiada pela Etiópia de um lado e a União das Cortes
Islâmicas – UCS – com armas fornecidas pela Eritréia, de outro, resultando em
350 mortes no fogo cruzado. Três anos depois e já com apoio dos EUA tropas
etíopes conseguiram rechaçar a UCS que, então, dividiu-se em diversas facções.
A mais forte delas, Al Shabaab, por fim expulsou os etíopes.
Um
novo governo afinal acaba de ser eleito pelo Parlamento e Hassan Sheikh Mohamud
tomou posse na presidência em 23 de junho deste 2022 (já exerceu o cargo entre
2012 e 2017) para um mandato de 4 anos, numa cerimônia que significativamente
contou com a presença dos 1os. Ministros egípcio e etíope, além dos presidentes
queniano e do Djibouti, mais o primeiro escalão da União Africana. Tendo a
missão extremamente difícil de enfrentar a seca e a fome que afetam seu povo e
administrar um país do qual só comanda uma pequena parte, Mohamud nomeou seu
melhor amigo, Hamza Abdi Barre, formado em administração pela Universidade
Islâmica da Malásia, como 1º Ministro. Barre, embora tenha só 48 anos, já tem 8
filhos (não se sabe de quantas esposas, pois a poligamia para os homens é
permitida), acima até mesmo da altíssima taxa de fecundidade nacional que recém
diminuiu para 5,9 filhos por mulher.
Na
Somália, a prática da mutilação genital feminina (MGF) é praticamente
universal, atingindo a 98% das meninas e das mulheres, mesmo sendo proibida
pela Constituição. As famílias costumam comemorar, considerando que a prática –
feita a partir dos 5 anos de idade – destina-se a manter a pureza da filha e
prepará-la para o casamento, que em geral se dá ainda na infância. A Unicef, em
seu documento Erradicação da Mutilação Genital
Feminina na Somália, diz que “a MGF
pode deixar graves sequelas no bem-estar físico, mental e psicossocial em quem
a sofre, tendo consequências para a saúde imediatas e de longo prazo”. As
complicações podem provocar perda de libido e infecções urinárias, entre diversos
outros males, mas a erradicação é dificultada pela sua não condenação pelo Islã,
além de enfrentar uma realidade em que as mulheres ocupam uma posição de
radical inferioridade em relação aos homens.
Missões
da ONU e da União Africana para a Somália não são capazes de sequer atenuar o
mar de problemas vividos pelos somalis. Os Estados Unidos, muito mais
preocupados com o mercado petrolífero do que com a sobrevivência da população,
após retirar seus marines durante o governo Trump, agora enviaram alguns
deles de volta com o objetivo expresso de combater os jihadistas do al Shabaab,
mesmo reconhecendo a inutilidade prática momentânea da iniciativa de Jo Biden.
