Vitor Gomes

Vitor Gomes Pinto, Escritor e doutor em saúde pública

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domingo, 19 de janeiro de 2014

Guerra civil no Sudão do Sul

A mais nova nação do mundo, o Sudão do Sul, não sabe o que fazer com a independência a duras penas conquistada quando, em 9 de julho de 2011, separou-se do Sudão sob os aplausos da comunidades internacional. O cordão umbilical, contudo, nunca foi rompido, pois o contencioso representado pelas ricas áreas limítrofes de Abyei, Unity e Alto Nilo permaneceu sempre em aberto (as reservas já comprovadas farão do Sudão do Sul o terceiro maior produtor do sub-sahara africano, após Nigéria e Angola). Difícil, também, tem sido perdoar ou esquecer a história recente. Darfur, a província sudanesa mais a oeste, na divisa com Chade, Líbia e República Centro Africana, foi o palco do genocídio que fez o Tribunal Penal Internacional condenar por crimes contra a humanidade o presidente Omar al-Bashir, que por sinal continua governando, embora não possa sair do país para não ser preso pela Interpol.  


A ONU acaba de aumentar seu contingente na região para 12.500 homens, mas tem fracassado de maneira sistemática nas tentativas de colocar lado a lado as distintas etnias e tribos que secularmente alternam guerra e convivência no território sudanês. De acordo com o manual, inimigos tradicionais devem sentar em volta da mesma mesa, firmar um acordo de paz e, então, passar a dividir o poder como se irmãos fossem. Em julho de 2005 a aplicação dessa teoria transformou o líder rebelde sulista John Garang em vice-presidente do Sudão, mas um mês depois ele morreu num acidente aéreo, o que provocou confrontos entre sulistas e árabes nortistas com centenas de mortos nas ruas de Kartum. Seu substituto, Salva Kiir Mayardiit, bafejado por melhor sorte, não só sobreviveu como selou o acordo de autonomia com al-Bashir e é hoje o presidente do Sudão do Sul.  

Sempre em obediência às diretivas internacionais (a força de paz UNMISS, Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul, com uma maioria de capacetes azuis indianos, dá sustentação ao governo), Kiir, que é da etnia Dinka, dividiu a administração do novo país em dois, entregando a vice-presidência para Riek Mashar, líder dos Nuer, minoritários, mas dominantes nas províncias petrolíferas.
Autoritário, em meio a denúncias de um milionário escândalo financeiro, no último dia 15 Kiir demitiu não só o seu vice como todo o gabinete. Imediatamente Mashar articulou, sem sucesso, um golpe de estado e assumiu o comando de um exército rebelde. A resposta foi a dissolução da Guarda Presidencial até então composta por agentes das duas etnias e o massacre dos Nuer. 

Não há como confundir os integrantes das tribos em luta. Embora sejam todos negros e secularmente dedicados ao pastoreio, os dinkas, famosos por seu porte atlético e beleza física, são gigantes (o povo mais alto da terra) que facilmente alcançam os 2 metros de altura.  Já os homens nuer são identificados pela marca facial - seis linhas paralelas feitas à navalha do alto da testa até o nariz, conhecida como Gaar - que recebem ao chegar à puberdade. O relato de Simon K ao jornal The Guardian reflete bem o padrão das guerras de extermínio racial na África. Capturado ele não conseguiu responder a uma pergunta crucial, feita no idioma dinka: “qual é o seu nome?”. Na cela do posto policial quase no centro de Juba, a capital sul-sudanesa, ele contou 252 nuers e viu os canos das armas que entre as barras das grades nas janelas atiravam, suspendiam a fuzilaria para ver se alguém ainda se mexia e atiravam de novo. Dois dias depois, com a chegada de socorro, Simon K e outros onze tinham sobrevivido imóveis sob os corpos que, deteriorando-se, cada vez mais os sufocavam.
   
A base das Nações Unidas está à beira do colapso, invadida por 20 mil fugitivos do conflito em busca de alimentos, água potável e proteção contra o calor intenso do dia e o frio cortante da noite. Não existem soluções fáceis à vista. Uma intervenção do Conselho de Segurança da ONU não tem viabilidade devido ao bloqueio de China e Rússia, fortes aliados de al-Bashar, e o regime de Kartum pode aproveitar-se do caos e intervir, aliando-se aos nuer de Mashar, para retomar os poços de petróleo que considera serem seus. Por fim, a internacionalização do conflito é eminente. Tropas de Uganda já estão no Sudão do Sul e é cada vez mais instável o quadro político nas vizinhas República Centro Africana e República Democrática do Congo. O governo de Salva Kiir parece afundar depois de receber e desperdiçar bilhões de dólares em ajuda internacional. A delegação africana de alto nível, incluindo o presidente do Quênia e o 1º Ministro da Etiópia, visitou Juba e propôs a cessação das hostilidades e início imediato de diálogos, tentando aliviar a crescente crise humanitária. Resta agora impedir as vinganças e tornar a convivência novamente possível.   

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Gato para o jantar

Há muito tempo atrás, em pleno século XIV, Timbuktu no extremo sul do deserto do Saara, durante o Império Malinês era o centro cultural do islamismo. Sua universidade, a Sankore Madrasah com 25 mil estudantes, famosa pelo nível elevado de ensino das artes e da ciência, formou muitos dos grandes sábios da antiguidade. Vieram as tribos tuaregues e com elas um auge econômico sob o Império Songhai de 1468 a 1591, graças às caravanas transaarianas que negociavam sal, ouro e escravos.

A invasão pelo Marrocos e o bem mais lucrativo comércio marítimo desenvolvido pelos europeus marcaram o início do longo declínio que resultou naquela que hoje não passa de uma pequena e empobrecida localidade de quase 60 mil habitantes, com freqüência devastada pelas pragas de gafanhotos e consumida progressiva e fatalisticamente pelas areias do deserto. Restam-lhe, além da fama, os belos templos construídos de areia e três escolas com currículo dedicado apenas à religião: as madrassas de Djingureber, Sidi Yahya e Sankore. No período das chuvas, em dezembro e janeiro, o canal de 3 km traz as águas transbordantes do rio Níger, mas no resto do ano predomina o vento seco do deserto, o Harmattan Haze, que nas horas mais densas reduz a visibilidade a uns poucos metros.

As famílias prezam suas tradições culturais e desenvolveram o hábito milenar de guardar manuscritos em esconderijos nos arredores da cidade. Atualmente escavações financiadas pela Unesco tratam de recuperá-los e na zona central o Instituto Ahmed Baba deles possui uma vasta coleção. Alguns documentos são tão frágeis que não podem ser movidos de onde estão, enquanto outros foram destruídos pelas milícias talibãs que somente em janeiro último foram expulsas pelas forças francesas.

Apesar da presença estrangeira o Mali continua em guerra, com as três províncias do norte (Gao, Kidal e Timbuktu, na região denominada de Asawad pelos rebeldes) que representam quase 60% do território nacional, na prática em mãos dos tuaregues e da facção Al-Qaeda do Magreb Islâmico – AQMI.  Empossado em setembro último na capital – Bamako -, o novo presidente, Ibrahim Keila, tem como desafios reunificar o país, promover a paz e o crescimento econômico. Com 1,2 milhões de km2 e 16 milhões de habitantes (2/3 são analfabetos) o Mali é um dos países mais pobres do mundo, cotado em 175º lugar entre 187 nações pelo IDH. No momento vigora um instável acordo de cessar-fogo, sustentado por apenas duas das dezenas de tribos tuaregues que operam em Asawad. Eleições legislativas realizadas domingo passado para preencher 147 cadeiras na Assembléia Nacional e indicar o primeiro-ministro não deram maioria a nenhum dos dois principais partidos políticos malineses tornando necessário um segundo turno neste dezembro. A nova Missão da ONU para o Mali (Minusma) apóia o processo com 11 mil capacetes azuis e 1,4 mil policiais que substituem as forças da União Africana, até aqui incapazes de fazer cessar o conflito.

Nessas condições, viajar para o norte e conhecer Timbuktu é algo reservado apenas a aventureiros que tenham um bom estômago e não estranhem quando inadvertidamente olharem para cima e se depararem com os couros dos gatos, ainda com as cabeças, a secar pendurados nos cabos telefônicos e nos fios da rede elétrica. Embora os gatos sejam considerados impuros pela religião muçulmana que proíbe seus seguidores (90% da população, a maioria sunita) de comê-los, as regras são violadas por jovens, numa espécie de rito de passagem para a puberdade (ou aceitação pelas patotas e gangues) a que são submetidos os garotos menores. Uma vez capturado, o felino é esfolado, enquanto a carne é escondida e deixada a secar durante três dias em alguma toca no deserto. Então, os pequenos em bandos amarram o couro com a cabeça em volta da cintura e vão dançar e cantar em volta das casas. Supersticiosos e amedrontados pelo que consideram bruxaria os adultos lhes dão como pagamento um punhado de arroz, que mais tarde acompanha o banquete em que os gatos são devorados. Por fim, os couros dos animais são jogados sobre os cabos telefônicos e lá ficam expostos como prova do festival macabro que enfeita as ruas de Timbuktu, outrora o símbolo maior da fé islâmica.

Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional