Vitor Gomes

Vitor Gomes Pinto, Escritor e doutor em saúde pública

Muito obrigado por consultar este site no qual você encontrará textos principalmente sobre dois grandes temas: relações internacionais e saúde pública.

Temos interesse em temas atuais relacionados à sociedade, à política, à economia, ao desenvolvimento do setor saúde, com foco no que se passa no Brasil e no mundo.
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Muitos pacientes e poucos médicos... nos EUA

Um dos efeitos colaterais do novo modelo de saúde democrata agora implementado nos Estados Unidos - conhecido como Obamacare - é o aumento da quantidade de pacientes à procura de atenção médica, potencializando um fenômeno que tem se agravado nos últimos anos: a gradativa redução do número de profissionais em atividade. Isso se deve ao envelhecimento dos médicos e ao maior interesse por outras profissões, o que ocasiona uma diminuição no acesso à carreira. Isso ocorre também com os dentistas, justificando a destinação de recursos significativos, pelo Obamacare, para custear projetos acadêmicos destinados a experimentar novos tipos de profissionais, quem sabe rompendo, no futuro, a reserva de mercado que as atuais profissões da área da saúde usufruem.
Não é, evidentemente, a mesma situação vivida no Brasil, onde o que hoje se observa - crescente pressão da população por atenção médica - tem causas e efeitos bem distintas. Aqui, por um lado, tem havido expansão constante do número de faculdades e de médicos e, por outro lado, o aumento da procura se deve a que os Planos de Saúde - o chamado subsistema suplementar - cada vez ocupam mais espaço na preferência dos consumidores.
A escassez de oferta de médicos e de outros profissionais em lugares distantes e economicamente deprimidos não é uma especificidade do Brasil ou da América Latina. Como se vê no excelente texto de Danielle Ofri - Lots os new patients, too few doctors - publicado pelo New York Times de 16/01/2014, é cada vez mais igualmente uma realidade para os norte-americanos.   Leia Mais.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Guerra civil no Sudão do Sul

A mais nova nação do mundo, o Sudão do Sul, não sabe o que fazer com a independência a duras penas conquistada quando, em 9 de julho de 2011, separou-se do Sudão sob os aplausos da comunidades internacional. O cordão umbilical, contudo, nunca foi rompido, pois o contencioso representado pelas ricas áreas limítrofes de Abyei, Unity e Alto Nilo permaneceu sempre em aberto (as reservas já comprovadas farão do Sudão do Sul o terceiro maior produtor do sub-sahara africano, após Nigéria e Angola). Difícil, também, tem sido perdoar ou esquecer a história recente. Darfur, a província sudanesa mais a oeste, na divisa com Chade, Líbia e República Centro Africana, foi o palco do genocídio que fez o Tribunal Penal Internacional condenar por crimes contra a humanidade o presidente Omar al-Bashir, que por sinal continua governando, embora não possa sair do país para não ser preso pela Interpol.  


A ONU acaba de aumentar seu contingente na região para 12.500 homens, mas tem fracassado de maneira sistemática nas tentativas de colocar lado a lado as distintas etnias e tribos que secularmente alternam guerra e convivência no território sudanês. De acordo com o manual, inimigos tradicionais devem sentar em volta da mesma mesa, firmar um acordo de paz e, então, passar a dividir o poder como se irmãos fossem. Em julho de 2005 a aplicação dessa teoria transformou o líder rebelde sulista John Garang em vice-presidente do Sudão, mas um mês depois ele morreu num acidente aéreo, o que provocou confrontos entre sulistas e árabes nortistas com centenas de mortos nas ruas de Kartum. Seu substituto, Salva Kiir Mayardiit, bafejado por melhor sorte, não só sobreviveu como selou o acordo de autonomia com al-Bashir e é hoje o presidente do Sudão do Sul.  

Sempre em obediência às diretivas internacionais (a força de paz UNMISS, Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul, com uma maioria de capacetes azuis indianos, dá sustentação ao governo), Kiir, que é da etnia Dinka, dividiu a administração do novo país em dois, entregando a vice-presidência para Riek Mashar, líder dos Nuer, minoritários, mas dominantes nas províncias petrolíferas.
Autoritário, em meio a denúncias de um milionário escândalo financeiro, no último dia 15 Kiir demitiu não só o seu vice como todo o gabinete. Imediatamente Mashar articulou, sem sucesso, um golpe de estado e assumiu o comando de um exército rebelde. A resposta foi a dissolução da Guarda Presidencial até então composta por agentes das duas etnias e o massacre dos Nuer. 

Não há como confundir os integrantes das tribos em luta. Embora sejam todos negros e secularmente dedicados ao pastoreio, os dinkas, famosos por seu porte atlético e beleza física, são gigantes (o povo mais alto da terra) que facilmente alcançam os 2 metros de altura.  Já os homens nuer são identificados pela marca facial - seis linhas paralelas feitas à navalha do alto da testa até o nariz, conhecida como Gaar - que recebem ao chegar à puberdade. O relato de Simon K ao jornal The Guardian reflete bem o padrão das guerras de extermínio racial na África. Capturado ele não conseguiu responder a uma pergunta crucial, feita no idioma dinka: “qual é o seu nome?”. Na cela do posto policial quase no centro de Juba, a capital sul-sudanesa, ele contou 252 nuers e viu os canos das armas que entre as barras das grades nas janelas atiravam, suspendiam a fuzilaria para ver se alguém ainda se mexia e atiravam de novo. Dois dias depois, com a chegada de socorro, Simon K e outros onze tinham sobrevivido imóveis sob os corpos que, deteriorando-se, cada vez mais os sufocavam.
   
A base das Nações Unidas está à beira do colapso, invadida por 20 mil fugitivos do conflito em busca de alimentos, água potável e proteção contra o calor intenso do dia e o frio cortante da noite. Não existem soluções fáceis à vista. Uma intervenção do Conselho de Segurança da ONU não tem viabilidade devido ao bloqueio de China e Rússia, fortes aliados de al-Bashar, e o regime de Kartum pode aproveitar-se do caos e intervir, aliando-se aos nuer de Mashar, para retomar os poços de petróleo que considera serem seus. Por fim, a internacionalização do conflito é eminente. Tropas de Uganda já estão no Sudão do Sul e é cada vez mais instável o quadro político nas vizinhas República Centro Africana e República Democrática do Congo. O governo de Salva Kiir parece afundar depois de receber e desperdiçar bilhões de dólares em ajuda internacional. A delegação africana de alto nível, incluindo o presidente do Quênia e o 1º Ministro da Etiópia, visitou Juba e propôs a cessação das hostilidades e início imediato de diálogos, tentando aliviar a crescente crise humanitária. Resta agora impedir as vinganças e tornar a convivência novamente possível.   

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Síria: a grande batalha

A Primavera Árabe chegou àquele que sempre foi seu verdadeiro objetivo de médio prazo: a derrubada de Bashar al-Asad na Síria. A mais longo prazo as armas poderão ser assestadas contra o inimigo maior do ocidente: o Irã dos aiatolás e de Mahmoud Ahmadinejad. Por ora seria suficiente remover do caminho o regime imperante em Damasco, único aliado regional remanescente ─ ao lado do Hezbollah libanês ─ de Teerã. Os combatentes tomaram suas posições no campo de batalha: de um lado o atual governo sírio sustentado pela Rússia e pela China; de outro o Exército Livre da Síria – ELS – com apoio de Estados Unidos, Inglaterra, França, Israel, Turquia e das monarquias do Golfo. A estratégia de armar o ELS e fornecer-lhe inteligência bélica resultou no surpreendente ataque à capital que matou quatro componentes do mais alto escalão governamental (o ministro da Defesa, seu vice e cunhado de Asad e dois chefes da unidade máxima de segurança nacional), mas não é suficiente para vencer a guerra civil síria que pode prolongar-se e durar anos.

Em 1963, quando o partido Baath tomou o poder, estabeleceu-se a aliança entre Síria e Rússia, consolidada quando a família al-Asad deu o golpe em 1970, primeiro com Hafed e desde 2000 com seu filho Bashar no poder. Milhares de jovens sírios foram enviados, ano após ano, a Moscou para estudarem e receberem instrução militar. Apaixonaram-se pelas mulheres russas, costume que vigora até hoje (mais de 30 mil russos, a maioria mulheres e crianças, vivem na Síria), selando uma aliança fortalecida por generosos créditos prioritariamente direcionados ao fornecimento de armamento que entre 2007 e 2010 chegaram a 4,7 bilhões de dólares. Não por acaso as tropas que atacaram as posições rebeldes em Homs o fizeram em modernos tanques de guerra russos e a base naval de Tartus, a única que Moscou mantém fora do território das ex-repúblicas soviéticas, está mais ativa do que nunca. As propostas de intervenção apresentadas no Conselho de Segurança da ONU, que tiveram sucesso no caso da Líbia, agora foram bloqueadas pelo veto da Rússia e da China.

Não é pela tradição nem por ligações comerciais diretas (os negócios entre os dois países não chegam a US$ 2,5 bilhões anuais, 90% em exportações chinesas) que a China apoia Damasco e sim pelo temor de que se repita o que aconteceu na Líbia, onde uma autorização para proteger a população civil se transformou num ágil movimento que levou à derrubada de Khadafi. É essa autorização que está sendo negada no caso da Síria. De um lado, na prática o maior prejudicado pela Primavera Árabe tem sido Pequim que viu desabarem suas lucrativas e cada vez mais promissoras interações econômicas no Oriente Médio e no norte da África. De outro lado, a simples menção da palavra democracia causa verdadeira ojeriza a Vladimir Putin e a Hu Jintao, ciosos de suas próprias autocracias. Em consequência, a súbita consolidação do eixo Moscou-Pequim, saudado com entusiasmo pelo Irã, é uma novidade cada vez mais preocupante para o ocidente.

A Liga Árabe, que em novembro último suspendeu de seu convívio a Síria (dos 19 governos sunitas que a compõem, somente o Iêmen votou contra), força a renúncia de al-Asad, temerosa de que no futuro se forme um Crescente Shiita composto por Irã, Iraque, Síria e Líbano. Dentre as monarquias do Golfo ─ um bloco de reinos, emirados e sultanatos árabes que receia ser atingido pela onda de liberalização que se espalha no seio de seus povos graças às facilidades dos meios de comunicação ─ duas, principalmente, exercem forte pressão: Arábia Saudita e Qatar que possuem o que os demais não têm: dinheiro para financiar as investidas do ELS, um grupo que já teria cerca de 45 mil milicianos, constituído alegadamente por desertores do exército sírio mas que, na verdade, reúne mercenários desempregados das recentes guerras da Líbia e do Iraque, incluindo um número não determinado de ativistas da organização terrorista Al Qaeda. Suas bases de operação estão na limítrofe província turca de Hatay e possivelmente também no Líbano e nos países vizinhos.

Nesse tabuleiro de xadrez político, as minorias étnicas e religiosas presentes na Síria (cristãos, curdos, drusos) preferem a manutenção de Asad, tanto por que têm sido aceitas pelo regime vigente quanto pelo medo de serem expulsas pelas hordas de radicais muçulmanos que, dizem, tomariam o poder no caso de uma vitória do ELS. O que acontecerá nas próximas semanas e meses é uma incógnita, pois todos temem uma generalização do conflito com a entrada efetiva de tropas e armamentos pesados iranianos e russos ao lado de Asad para enfrentar forças invasoras terrestres que contariam com milicianos turcos e de algumas das monarquias árabes em torno. Um entendimento na mesa de negociações do Conselho de Segurança da ONU é pouco provável, ao menos de imediato, mas pode ser viabilizado para impedir uma nova guerra total. 

Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

Socialismo Bolivariano

Poucos poderiam imaginar que fosse possível alguém pior que Hugo Chávez na presidência da Venezuela. Não esperavam que o coronel travestido em “supremo comandante” se fosse tão cedo, aos 57 anos em março de 2012, e que um ex-motorista de ônibus, Nicolás Maduro o substituísse, dedicando-se a endeusá-lo ao ponto de afirmar que recentemente o vira na forma de um passarinho.

Frente a denúncias de que livros e cartilhas escolares eram pura propaganda bolivariana, a Ministra da Educação, Maryann Hanson, candidamente explicou que Chávez revisava os conteúdos, corrigia dados históricos e, portanto, é o autor das publicações (embora, ao que se saiba, nunca tenha escrito uma só linha), sendo justo dar-lhe os créditos. Já o médico Rafael Ríos, titular do Vice-Ministério da Suprema Felicidade Social do Povo Venezuelano criado em outubro último discorda dos muitos que dizem ser o país o “hazme reir del mundo” (faz-me rir, motivo de chacota). A população, contudo, já não vê motivos sequer para sorrir com o desabastecimento geral – índice de escassez de produtos médio superior a 20%, chega a 80% no caso dos ovos – que fez desaparecer das prateleiras arroz, farinha, manteiga, sabonete, creme dental, papel higiênico, afora as crises no abastecimento de energia que já levaram a dois grandes racionamentos. O Bolívar, que sofreu uma primeira desvalorização, no período chavista, em 2003 quando foi a 1,92 por dólar, após perder três zeros em 2008, este ano recuou para uma cotação de 6,3 frente à moeda norte-americana que vale pelo menos nove vezes mais no ativo mercado paralelo. A inflação deste ano é de 54%, a mais alta de toda América Latina e o Banco Central, após outra descaracterização em sua reduzida autonomia, viu-se forçado a fazer novas emissões, lastreadas nas rendas da PDVSA, a estatal do petróleo, para sustentar importações de 400 mil toneladas de alimentos dos países vizinhos (20% do Brasil). O petróleo, responsável por 90% das divisas que ingressam no Banco Central, em 2008 alcançou o preço de US$ 130 pelo barril, mas desde o ano seguinte estabilizou-se em torno de US$ 80, ainda assim fazendo a riqueza da Venezuela.

O povo parece estar mudando de opinião. Não mais culpa “o governo” pela crise, e sim a Maduro por considerá-lo incapaz. Com a proximidade das eleições municipais de 8 de dezembro próximo em que as intenções de voto estão equilibradas entre situação e oposição, o presidente reage aprofundando o que se convencionou denominar de “socialismo bolivariano” ou, de acordo com o ideólogo do regime Haiman El Troudi, atual ministro dos Transportes, um “modelo socialista de produção com apropriação coletiva de lucros, bens, serviços, que funcionarão integrados a uma cadeia de valor controlada pelo Estado.” No ano passado Chávez fez explodir os gastos sociais e a ajuda a países amigos, provocando um déficit fiscal de 15%, mas a verdadeira culpada, segundo o regime de Maduro, é a “burguesia parasitária que especula e nega ao povo o direito de ser feliz roubando-lhe a possibilidade de ter não o que necessita e sim aquilo com que sonha.” Este é um paradoxo da crise venezuelana. De acordo com Maduro e com o general Herbert García Plaza, diretor do Órgão Superior para a Economia, “temos que garantir que todo o povo tenha uma TV de plasma e uma geladeira de última geração.” Isso, no entanto, na prática é impossível. A Missão Minha Casa Bem Equipada nos últimos três anos vem trazendo grandes volumes de produtos da linha branca da China que não conseguiram a confiança dos consumidores, os quais não encontram as marcas mais reconhecidas e desconfiam da qualidade e das garantias do que lhe oferecem.
       
Para combater a escassez, o governo ordenou ao Exército e à Guarda Nacional Bolivariana que invadisse grandes lojas de eletrodomésticos (rede Daka, a maior de todas), autopeças, roupas, calçados e até de brinquedos e concessionárias de carros, forçando-as sob ameaça das armas a vender seus produtos a preços muito rebaixados. Além das enormes filas (as maiores ainda são as dos supermercados), começaram os saques, mas rapidamente bens como celulares, TVs, máquinas de lavar, aparelhos de ar condicionado, play stations sumiram das gôndolas. Acelera-se a política de expropriações e estatizações iniciadas seis anos atrás, difundindo-se a noção do “consumo necessário” (gastar só no essencial) com base na celebre frase de Chávez de que “ser rico é ruim”. Justificando os ataques militares às lojas comerciais, Maduro fala em admitir margens de lucro entre 15% e 30% para a iniciativa privada que ameaça fechar as portas provocando demissões em massa que não poderiam ser absorvidas pelos serviços públicos, pois estes já estão superlotados (em 2014 o estoque de empregos públicos será congelado). A Lei Habilitante agora aprovada permite a Maduro governar durante um ano sem o Congresso, mas, por ter consumido grande parte das reservas internacionais, terá de cobrir um enorme déficit fiscal, provavelmente socorrendo-se do megaempréstimo em negociação com a instituição financeira Goldman Sachs. O líder oposicionista Henrique Capriles, que luta para não perder sua terceira eleição no curto período de dois anos, diz que Maduro está destruindo o país. Pobre Venezuela.

Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

Gato para o jantar

Há muito tempo atrás, em pleno século XIV, Timbuktu no extremo sul do deserto do Saara, durante o Império Malinês era o centro cultural do islamismo. Sua universidade, a Sankore Madrasah com 25 mil estudantes, famosa pelo nível elevado de ensino das artes e da ciência, formou muitos dos grandes sábios da antiguidade. Vieram as tribos tuaregues e com elas um auge econômico sob o Império Songhai de 1468 a 1591, graças às caravanas transaarianas que negociavam sal, ouro e escravos.

A invasão pelo Marrocos e o bem mais lucrativo comércio marítimo desenvolvido pelos europeus marcaram o início do longo declínio que resultou naquela que hoje não passa de uma pequena e empobrecida localidade de quase 60 mil habitantes, com freqüência devastada pelas pragas de gafanhotos e consumida progressiva e fatalisticamente pelas areias do deserto. Restam-lhe, além da fama, os belos templos construídos de areia e três escolas com currículo dedicado apenas à religião: as madrassas de Djingureber, Sidi Yahya e Sankore. No período das chuvas, em dezembro e janeiro, o canal de 3 km traz as águas transbordantes do rio Níger, mas no resto do ano predomina o vento seco do deserto, o Harmattan Haze, que nas horas mais densas reduz a visibilidade a uns poucos metros.

As famílias prezam suas tradições culturais e desenvolveram o hábito milenar de guardar manuscritos em esconderijos nos arredores da cidade. Atualmente escavações financiadas pela Unesco tratam de recuperá-los e na zona central o Instituto Ahmed Baba deles possui uma vasta coleção. Alguns documentos são tão frágeis que não podem ser movidos de onde estão, enquanto outros foram destruídos pelas milícias talibãs que somente em janeiro último foram expulsas pelas forças francesas.

Apesar da presença estrangeira o Mali continua em guerra, com as três províncias do norte (Gao, Kidal e Timbuktu, na região denominada de Asawad pelos rebeldes) que representam quase 60% do território nacional, na prática em mãos dos tuaregues e da facção Al-Qaeda do Magreb Islâmico – AQMI.  Empossado em setembro último na capital – Bamako -, o novo presidente, Ibrahim Keila, tem como desafios reunificar o país, promover a paz e o crescimento econômico. Com 1,2 milhões de km2 e 16 milhões de habitantes (2/3 são analfabetos) o Mali é um dos países mais pobres do mundo, cotado em 175º lugar entre 187 nações pelo IDH. No momento vigora um instável acordo de cessar-fogo, sustentado por apenas duas das dezenas de tribos tuaregues que operam em Asawad. Eleições legislativas realizadas domingo passado para preencher 147 cadeiras na Assembléia Nacional e indicar o primeiro-ministro não deram maioria a nenhum dos dois principais partidos políticos malineses tornando necessário um segundo turno neste dezembro. A nova Missão da ONU para o Mali (Minusma) apóia o processo com 11 mil capacetes azuis e 1,4 mil policiais que substituem as forças da União Africana, até aqui incapazes de fazer cessar o conflito.

Nessas condições, viajar para o norte e conhecer Timbuktu é algo reservado apenas a aventureiros que tenham um bom estômago e não estranhem quando inadvertidamente olharem para cima e se depararem com os couros dos gatos, ainda com as cabeças, a secar pendurados nos cabos telefônicos e nos fios da rede elétrica. Embora os gatos sejam considerados impuros pela religião muçulmana que proíbe seus seguidores (90% da população, a maioria sunita) de comê-los, as regras são violadas por jovens, numa espécie de rito de passagem para a puberdade (ou aceitação pelas patotas e gangues) a que são submetidos os garotos menores. Uma vez capturado, o felino é esfolado, enquanto a carne é escondida e deixada a secar durante três dias em alguma toca no deserto. Então, os pequenos em bandos amarram o couro com a cabeça em volta da cintura e vão dançar e cantar em volta das casas. Supersticiosos e amedrontados pelo que consideram bruxaria os adultos lhes dão como pagamento um punhado de arroz, que mais tarde acompanha o banquete em que os gatos são devorados. Por fim, os couros dos animais são jogados sobre os cabos telefônicos e lá ficam expostos como prova do festival macabro que enfeita as ruas de Timbuktu, outrora o símbolo maior da fé islâmica.

Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

A Educação é Asiática


A semana foi marcada pela divulgação de dois importantes indicadores que permitem a comparação entre cada país e a realidade internacional. De acordo com o Índice de Percepção da Corrupção produzido pela ONG Transparência Internacional (TI) o Brasil, em 72º lugar dentre 176 países, obteve minguados 42 pontos numa escala de 0 a 100, com a consolação de ter superado – à exceção da África do Sul com a qual se igualou – os demais integrantes do grupo dos BRIC (China 40, Índia 36 e Rússia 28 pontos). Apesar do julgamento do Mensalão e de ter a quarta maior população carcerária do mundo com 550 mil presos, o país caiu três posições em relação ao ano anterior. Para o mexicano Alejandro Salas, diretor para as Américas da TI, “o Brasil é hoje o maior adversário de si mesmo, precisando demonstrar que a justiça funciona e que as leis são cumpridas.”

De ainda maior impacto prático, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (conhecido pela sigla PISA em inglês) da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE –, após computar os resultados das provas feitas por mais de meio milhão de adolescentes de 15 anos de idade de 65 nações (onde reside mais de 80% da população mundial), concluiu que o Brasil é o 57º classificado com 402 pontos. Conseguiram pontuação ainda inferior à brasileira a Jordânia, Tunísia, Argentina, Albânia, Colômbia, Indonésia, Qatar e Peru. Altamente respeitado em todo o mundo, o programa mede o que sabem os estudantes e o que poderão fazer com seus conhecimentos, mostrando quais os sistemas educacionais mais exitosos e, portanto, com maior potencial de contribuição para o futuro de seus países. Além das questões principais abrangendo três áreas temáticas – matemática, ciências e leitura – as provas enfatizaram a capacidade em resolver problemas e a compreensão de aspectos financeiros. O Vietnã que pela primeira vez participou obteve notas superiores às dos alunos norte-americanos em ciências e matemática, o que levou o Secretário de Educação dos EUA, Arne Duncan, a descrever 2012 como um ano de paralisação educacional no país. Jan Bjorklund, ministro da educação da Suécia, insatisfeito com a queda para a 33ª. posição no ranking geral declarou que o resultado do PISA representa “o prego final no caixão da velha reforma escolar”. Não obstante, o sistema sueco de ensino, baseado nas escolas livres, é comumente referido como um dos mais competentes do universo e três anos atrás serviu de modelo para a reformulação do sistema britânico que, por sinal, também não foi bem avaliado no PISA (o Reino Unido ficou em 19º e os EUA em 26º).

Os seis primeiros lugares couberam à Ásia. A megacidade de Xangai com 23,9 milhões de habitantes, representando a China comunista, uma vez mais situou-se em 1º lugar com média geral de 588 pontos, seguida por Cingapura, Hong Kong, Coréia do Sul, Japão e Formosa. Completaram os dez primeiros a Finlândia, Estônia, Liechtenstein e Macau. A reputação das escolas chinesas é bem conhecida e o país tem uma longa tradição de respeito pela área educacional, com os pais exigindo um elevado desempenho escolar de seus filhos e os professores reservando a cada ano 1/3 de seu tempo para aperfeiçoamento profissional. Contudo, o jornal londrino The Guardian comentou que a China não é apenas Xangai, de modo que o resultado reflete mais a ambição chinesa do que sua realidade global, observando que as autoridades nacionais não liberaram os escores de outras doze províncias consideradas pela OCDE. A América Latina em conjunto teve desempenho péssimo com os oito países incluídos situando-se nos últimos postos do ranking. Mesmo o Uruguai (3º na região atrás de Chile e México e 49º no total) referiu o ano passado como muito negativo para a educação pública devido a greves docentes e altas proporções de repetentes nos colégios secundários.

Não se sabe de reclamações quanto a uma eventual complexidade dos testes. Veja estes exemplos e conclua se jovens de 15 anos seus conhecidos conseguiriam respondê-las corretamente: I) “O Monte Fuji está aberto para escaladas pelo público somente de 1º de julho a 27 de agosto de cada ano. Cerca de 200.000 pessoas sobem durante esse período. Em média, quantas pessoas sobem o Monte Fuji a cada dia? Opções: a. 340 – b. 710 – c. 3.400 – d. 7.100 – e. 7.400; II) a rota Gotemba para subida do Monte Fuji tem 9km. Os visitantes necessitam retornar da caminhada de 18 km até as 20 horas. Toshi estima que ele pode andar a 1,5 km por hora na subida e o dobro dessa velocidade na descida, já incluindo paradas para alimentar-se e descansar. Com base na velocidade estimada por Toshi, qual é a última hora em que ele deve iniciar a caminhada para que possa retornar às 20 horas?” (Respostas: C – 11 horas).

No caso do Brasil o agravante principal é a forte concentração de respostas nos níveis inferiores de complexidade. No nível 1 (tido como inaceitável) ou abaixo dele situaram-se 49,2% das respostas  em leitura, 77,1% em matemática e 53,7% em ciências. O nível 6, o mais elevado e estratégico como grande reservatório de capital humano e de potencial de solução dos problemas mais complexos da nossa sociedade, como afirma a professora Ilona Becskeházy em artigo para o Estadão, foi atingido por somente 0,5% dos brasileiros. Tomando por base os cálculos da OCDE de que 65 pontos correspondem a 1,5 anos de aprendizado, o Brasil tem 4 anos de desvantagem em relação ao topo da lista., Segundo a opinião de Juan Pablo Valenzuela do Centro de Estudos Avançados da Universidade do Chile em entrevista à revista Semana, o Brasil precisaria mais de quarenta anos para eliminar esta brecha. Para o ministro da Educação Aloizio Mercadante, comemorando os avanços em matemática, se computássemos só os resultados das escolas federais estaríamos no mesmo patamar de Itália e Espanha, um raciocínio que ignora o fato de que o mesmo procedimento poderia ser adotado por esses países. Pode-se concluir que muito dificilmente a meta constante do Plano Nacional de Educação – 473 pontos no PISA até 2021 – será atingida, mesmo porque na avaliação do desempenho atual dos estados o melhor (Espírito Santo) fez 423 pontos e o pior (Alagoas) escassos 348.
Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional.