Vitor Gomes

Vitor Gomes Pinto, Escritor e doutor em saúde pública

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

 

Mongólia, asfixiada por Rússia e China, resiste

Vitor Pinto

Escritor. Analista internacional

 

A vida numa tenda

É final de outubro em Ulan Bator (Ulaanbaatar no idioma mongol), a capital mais fria do mundo, ainda no outono, mas a temperatura subitamente caiu para 15 graus negativos e veio a primeira nevasca, antecipando o inverno. No país do céu azul em que nuvens só reaparecerão meses depois, ruas e calçadas ficam cobertas por uma camada de gelo que, todos sabem, só derreterá quando vier a primavera, cinco meses depois. Nesse período, crianças e idosos sofrem sob o risco constante de queda e precisam adotar cuidados extraordinários; os carros desde já precisam substituir seus jogos de pneus. É só esperar uns dias para que o fenômeno da inversão térmica dê origem a uma camada entre o cinza e o marrom acima da cidade retendo um ar tóxico que gradativamente levará seu milhão e meio de habitantes a conviver com o fenômeno conhecido como “violência lenta”. A queima de carvão bruto para aquecimento das casas é causa predominante ou acessória, junto com a baixíssima umidade relativa do ar e a seca, para os níveis absurdos de poluição atmosférica que organizações como a “Clean Air Pollution - Breathe Air” (“Poluição e ar limpo – ar respirável”, em tradução livre) tentam infrutiferamente combater.

Situado no leste da Ásia, do tamanho do estado do Amazonas (1,5 milhão de km2) e tendo fora das cidades uma população predominantemente nômade, o país é pouco povoado. A população total é de 3,3 milhões de habitantes e sua densidade populacional, de 1,92 habitantes por km2, supera apenas países como Guiana Francesa, Namíbia ou Austrália (o Brasil, outro país vazio, tem menos de 24 pessoas por km2). Distante do mar, a Mongólia tem um clima continental extremo com invernos muito frios e verões curtos e quentes sobretudo no deserto de Gobi que ocupa boa parte do sul do país. Estepes e montanhas compõem a paisagem ao norte e a oeste, onde estão os românticos cazaques ainda dedicados à falcoaria (caça com falcões domesticados). Rios e lagos em geral secam durante boa parte do ano, reaparecendo graças às fortes chuvas de verão, com o que o país é forçado a importar principalmente da Rússia quase toda a eletricidade que consome.

Seis de cada dez famílias vivem em Gers, as tradicionais tendas transportáveis que podem ser instaladas onde espaço houver, inclusive em Ulan Bator que lhes destina amplos terrenos específicos. Uma Ger tem estrutura interna em treliça e 81 postes de madeira (o número 9 dá sorte e 81 é 9x9, As maiores têm 108 postes ou 12x9) coberta por feltro ou lã, em geral com lona por cima e uma só porta, ideal para proteção contra o calor ou o frio, sempre sem fundações na terra, o que facilita sua locomoção. Não possuem instalações sanitárias e as necessidades são feitas no ambiente externo. Classicamente a Ger possui uma cama ampla com o fogão no centro, ficando os implementos de cozinha e as roupas das crianças à direita, pois o lado esquerdo pertence aos homens. Nas cidades a Ger (ou Yurta para os povos das vizinhanças) transforma-se numa moradia definitiva.

fogão de ger

 

Ursa Major Ger Camp, Orkhon Valley | Wild Frontiers

Um campo de Gers na Mongólia. É comum a opção por um fogão a lenha no centro para aquecer melhor no longo inverno.

Sufocada entre dois vizinhos poderosos – Rússia ao norte e China ao sul – a Mongólia desde 1990 fez sua revolução democrática, elaborou uma nova Constituição e tem votado na ONU como se fosse neutra frente à invasão russa da Ucrânia. A exemplo de muitos outros países, o povo afinal decidiu pressionar nas ruas e na última semana mesmo sob frio extremo, com temperaturas rondando os 21 graus negativos, um numeroso grupo reuniu-se na praça central de Sukhbaatar, com cartazes proclamando que o país está em colapso econômico. As razões mais imediatas são uma inflação superior a 15% e a revolta contra parlamentares e funcionários da empresa estatal de mineração Erdenes, acusados de desviar fundos em benefício próprio das minas de carvão que representam ¼ do PIB nacional.

A situação econômica é crítica porque praticamente tudo o que é produzido termina sendo exportado para a China e recentemente as fronteiras de novo foram fechadas devido à política de Covid zero adotada por Pequim. Com o país hoje desproporcionalmente dependente do seu maior parceiro comercial, o bloqueio da extensa faixa que divide as duas nações tem feito com que as exportações da Mongólia caiam e os preços domésticos se elevem a taxas absurdas. Além do carvão bruto, a Mongólia se destaca por produzir um terço da caxemira do mundo ou 9 mil toneladas por ano obtido de rebanhos que reúnem 20 milhões de cabras. O grande orgulho dos mongois, contudo, está nos planteis dos famosos cavalos-de-przewalski (nome do naturalista russo que os identificou), porte médio, pelagem castanha clara, crina negra e grande resistência. Selvagens, tem origem milenar, tendo acompanhado os grandes cavaleiros hunos e as ofensivas de Gengis Khan, mas acabaram extintos na natureza no início dos anos 1960, sobrevivendo hoje em cativeiro. As competições equestres são o esporte nacional.     

As opções políticas também são cada vez mais limitadas. Xi Jinping removeu limites de seu mandato, o que lhe abriu a possibilidade de governar por toda a vida; enquanto Putin assinou uma revisão da Constituição e pode permanecer no poder até o ano de 2.036. Como disse Tsakhiagiin Elbegdorj, presidente da República de 2009 a 2017 pelo Partido Democrático, “sinto que agora temos apenas um vizinho; China e Rússia tornaram-se como que um só país em torno da Mongólia.”

A grande nação mongol

Nascido Temudjin Borgijin em 1162, Gengis Khan embora tenha vivido curtos 65 anos foi capaz de erguer o Império Mongol que seus descendentes fizeram chegar a Pequim e a Moscou; à Índia, Paquistão e Afeganistão; à Polônia, Hungria e Albânia, conectando oriente e ocidente, do Pacífico ao Mediterrâneo num reino que já no final do século XIII dominava algo como 20% do planeta: o maior império de terras contíguas de todos os tempos.

Deixando milhares de mortos por onde passava, Gengis sob certos aspectos foi um homem justo: baseou seu Império na lealdade e não na religião, admitindo a mais ampla liberdade religiosa; adotou a escrita uigur e isentou os pobres e o clero de impostos; reabriu a rota da seda por onde viajou Marco Polo; deu grande impulso à astronomia e à matemática, além de contribuir decisivamente para a utilização do dinheiro em papel, o início do livre comércio e da imunidade diplomática. Os chineses lhe atribuem (e a seu neto Kublai) a criação da dinastia Yuan.

Conta-se que um dos seus descendentes, Mongke Khan, pediu ao missionário flamengo Guilherme de Rubruck que organizasse uma reunião na qual disse: “cada um de vocês – cristãos, sarracenos (islamitas), budistas – diz que sua doutrina é a melhor. Ele deseja que vocês se juntem e façam uma comparação para que possa conhecer a verdade”. Formou-se ali uma grande multidão, pois cada lado chamou os mais erudidos de seu povo. Mongke insistiu que cada religião da Mongólia recebesse uma audiência justa em seu tribunal. Ao que parece, o próprio Rubruck, que era franciscano, não ficou satisfeito com seu desempenho e foi mandado embora sem que finalmente se obtivesse qualquer resultado concreto.

Afinal, Yeke Mongyol Ulus, a Grande Nação Mongol, atingiu um estágio de acelerado declínio após o ano 1.725 cedendo ao poderio do Império Britânico quando o último imperador, Bahadur Ká II, estava restrito ao seu palácio em Deli, na Índia, depois de ter dominado a Eurásia, como o Estado mais rico e poderoso da face da Terra.

Apesar de não estabelecer restrições a qualquer religião, Gengis Khan favoreceu o budismo ao permitir a gradativa construção de cada vez mais mosteiros, até que o país se acostumasse e cada família se orgulhasse por ter pelo menos um de seus filhos como monge. Neste século XXI, não menos da metade dos mongóis segue o budismo, ao passo que 40% declaram não ter religião. Isso não impede que o xamanismo mongol seja amplamente difundido como 1ª. ou 2ª. crença.

Gengis Khan, morto há 795 anos, transformou-se num dos principais deuses para um povo que o venera como o seguidor maior de Tengris, o Deus Supremo do Céu Azul. Gengis é adorado como um semideus do tengriísmo, um herói e um ancestral divino com seu mausoléu (sem o corpo ou seus restos) na cidade de Ordos, na Mongólia Interior e uma imensa estátua em Ulan Bator. Ele é sempre lembrado nos “ovoos”, que são montes de pedras xamânicas encontrados por quase toda parte nos campos ou nos terreiros.

Submissão e independência

Após ficar sob influência do budismo tibetano nos séculos XVI e XVII, a Mongólia tornou-se um domínio da dinastia Qing, a última do período imperial chinês, substituída somente no início do século XX por ocasião do surgimento da República da China. Em 1921 a Mongólia obteve a independência da China (até hoje celebrada como o Dia da Revolução em 11 de julho) dando um término a trezentos anos de domínio. Entretanto, três anos depois, em 1924, o país passou a ser a República Popular da Mongólia, aderindo ao campo político soviético até o colapso do regime socialista em 1989. Por fim, no ano seguinte a Mongólia fez sua própria revolução pacífica adotando uma economia de mercado.

Entretanto, uma enorme área de 1.183.000 km2 ao sul da Mongólia e norte da China a Mongólia Interior – acabou sendo incorporada em definitivo ao território chinês, tornando-se uma província autônoma sob o comando de Pequim que atualmente é a 3ª. subdivisão em tamanho do país (aí está grande parte da Muralha da China), tendo limites com outras sete províncias além da Mongólia e Rússia. Ao contrário das famílias uighures e tibetanas, entre os mongóis não há restrição quanto a casar com parceiros Han.

As quase sete décadas sob mando soviético testemunharam a sistemática eliminação de “inimigos” (adversários políticos), especialmente entre 1967 e 1969, um massacre conhecido como “A Grande Repressão” ordenado por Stalin e executado com sadismo pelo Marechal de Campo Khorloogiin Choibalsan. Com o objetivo de esmagar a religião na Mongólia, a maioria dos lamas tibetanos foi executada ou castrada ao lado de 40 a 100 mil mongóis no processo de expurgo do Partido Revolucionário do Povo da Mongólia Interior. Dos 700 mosteiros existentes os poucos que restaram, após tanto tempo vazios, foram gradativamente recuperados na década dos anos 1990 com o renascimento dos cultos em geral. Ainda assim, o período soviético coincidiu com a extinção do analfabetismo e da epidemia de sífilis que estava generalizada, ademais de impedir a absorção do país pela China como aconteceu com o Tibete. Esta história está contada no livro The Lost Country de Jackson Becker* e no Museu da Perseguição Política em Ulan Bator que expõe crânios de pessoas executadas com um tiro na cabeça.

Nesta fase republicana a primeira eleição livre multipartidária ocorreu em julho de 1990 para 430 cadeiras no Great Hural (Casa Superior), mas a oposição não tinha candidatos suficientes e 83% das vagas foram preenchidas pelo MPRP, o Partido Revolucionário do Povo Mongol. A oposição da União Democrática venceu pela primeira vez em 1996 derrotando um comunista ortodoxo. Depois de várias alternâncias, um presidente democrata governou até junho do ano passado. Atualmente o presidente e o 1º Ministro pertencem ao PPM – Partido Popular da Mongólia que substituiu o finado MPRP. Em novembro de 2022 o Presidente participou da Conferência climática COP 27 no Egito na qual discorreu sobre o programa de reflorestamento que pretende plantar 1 bilhão de árvores a fim de compensar o histórico de abate para obter madeira destinada ao aquecimento das casas. No momento os esforços do governo estão concentrados no projeto do Corredor Econômico China – Mongólia – Rússia, uma espécie de rota da seda atualizada pela qual deverão fluir as mercadorias de cada país, incluindo o gás russo que abastece de maneira privilegiada a seus vizinhos.

 

Mapa

Descrição gerada automaticamente

O mapa mostra os limites do Império Mongol no século XIII e a Mongólia atual.

No território chinês está a chamada Mongólia Interior.

 

*. Para ler mais sobre a Mongólia, veja o paulistano Guilherme Carvalho (kalapalo.com.br/minha-biblioteca-sobre-a-mongolia/); o carioca Bernardo Carvalho – Mongólia – Cia das Letras, 2003 (Prêmio Jabuti, 2004, categoria romance); Galsan Tschinag (é mongol) – The Gray Earth e The Blue Sky.