Vitor Gomes

Vitor Gomes Pinto, Escritor e doutor em saúde pública

Muito obrigado por consultar este site no qual você encontrará textos principalmente sobre dois grandes temas: relações internacionais e saúde pública.

Temos interesse em temas atuais relacionados à sociedade, à política, à economia, ao desenvolvimento do setor saúde, com foco no que se passa no Brasil e no mundo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Eleições 2014 até na Bolívia

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·         Vitor Gomes Pinto
Eleições 2014 até na Bolívia
26/01/14 às 22:27 (publicado no Bem Paraná - Curitiba)

A temporada de caça a eleitores já começou para os políticos latino-americanos. Não importa se com cartas marcadas ou não, o fato é que a realização de pleitos ditos universais (ou limitados a votantes do partido no poder como na Ilha) para o Executivo e o Legislativo passaram a se constituir na face aparente dos regimes mais ou menos democráticos no continente. Além do início das administrações de Peña Nieto que no México traz de volta o PRI e da socialista Michelle Bachelet no Chile, a presidência mudará de mãos em sete países, começando em 2 de fevereiro por El Salvador e Costa Rica, os dois com forte perspectiva de um 2º turno em seguida.
A Frente Farabundo Marti para la Liberación Nacional – FMLN, partido originário da guerra salvadorenha dos anos oitenta, está no governo com Mauricio Funes (sua esposa é a brasileira Vanda Pignato, representante do PT na região) que fez uma administração aberta e é o mais popular dos governantes centro-americanos. Recusou-se a entrar para o bloco bolivariano da ALBA e procurou aproximar-se da Aliança para o Pacífico onde estão Chile, Colômbia, México e Peru. A esquerda mais ideológica não gostou e agora apresenta como candidato o atual vice, Salvador Sánchez Cerén que não deslancha. Tem 35% da preferência eleitoral, contra 32% do dentista e ex-prefeito de San José Norman Quijano da Arena, que conseguiu unir toda a direita tradicional em torno do seu nome. O grande problema é o tráfico de drogas. Funes negociou desde 2012 uma trégua com os líderes das duas maiores quadrilhas do país – Mara Salvatrucha e Calle 18 (M13 e M18) -, presos na prisão de segurança máxima Zacatecoluca, mas neste começo de ano elas voltaram a atacar policiais e soldados. Em 14 de abril último El Salvador comemorou o 1º dia sem homicídios num período de três anos.
Após duas administrações social-democratas Costa Rica tem três concorrentes em virtual empate técnico: Johnny Araya do situacionista Partido de Liberação Nacional (PLN) com 22,2% das intenções de voto; José Maria Villalta da Frente Ampla de esquerda com 20,3% e Otto Guevara do Movimento Libertário de direita com 20,2%. Caso ninguém obtenha 40% dos votos válidos, haverá 2º turno. Tentando evitar um terceiro mandato do PLN, a esquerda, que tem penetração na juventude (1/3 do eleitorado), propõe revitalizar o papel do setor público e ampliar direitos de gays, lésbicas e transexuais, enquanto Guevara quer um Estado mais eficiente e competitivo. O país mantém a tradição de neutralidade desde que aboliu o Exército em 1948, mas a proximidade com Cuba e Estados Unidos, assim como a pressão dos venezuelanos tem presença ativa nos debates pré-eleitorais.
Na Colômbia, onde o pleito legislativo é em março e o presidencial em 25 de abril, não devem ocorrer mudanças de rumo. O favoritismo é do neoliberal Juan Manuel Santos que deseja a reeleição. Tem mais de 20 pontos percentuais de vantagem frente ao uribista Óscar Zuluaga e a Clara López do esquerdista moderado Pólo Democrático. A proposta de realizar um referendo de aprovação (ou não) dos termos do Acordo de Paz com as Farc, em discussão em Havana, não tem chance pelo curto prazo disponível. O prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, destituído pelo Procurador Geral da Nação, resiste no posto e se aproxima do Partido dos Indignados ou Partido do Tomate, formado por jovens que num movimento similar às marchas de junho no Brasil, ganharam fama jogando os frutos contra símbolos dos poderes constituídos e colhem assinaturas populares para concorrer, o que também parece inviável.
Em maio (dia 4) chega a vez do Panamá escolher o novo ocupante do Palácio das Garças, provavelmente José Domingo Arias do governante Cambio Democrático que nas pesquisas tem 39% de apoio. No fundo, nada deve mudar, mas se à última hora as oposições se unirem podem vencer ou com Juan Carlos Navarro do PRD, social-democrata ou com Juan Carlos Varela, liberal de direita do Partido Panamenhista. Há, ainda, a hipótese mais remota de o atual presidente Ricardo Martinelli, cuja gestão tem índices elevados de apoio, virar a mesa e aprovar no Congresso a reeleição, hoje vetada.
O Brasil, transformado, segundo Miguel Bastenier do El País, num feudo do Partido dos Trabalhadores e sem oposição visível, deve reeleger Dilma Rousseff sem maiores problemas em outubro. Nem mesmo as condenações de parte da alta cúpula do partido no processo do Mensalão ou a rejeição popular expressa nas marchas de rua de junho de 2013 foram suficientes para ameaçar o quarto mandato consecutivo do grupo comandado por Lula da Silva.
O Uruguai (1º turno em 26/10 e 2º em 30/11) apenas aguarda o retorno de Tabaré Vasquez à presidência, substituindo a José Mujica, ambos da Frente Ampla. Com chances mínimas estão os candidatos dos tradicionais Partidos Nacional e Colorado (governou mais de cem anos até desabar com mínima votação em 2004) ou dos Independentes. Por lei haverá um pleito interno de cada Partido em 1º de junho para escolher oficialmente o respectivo candidato.

Por fim as eleições bolivianas previstas para dezembro foram antecipadas para 5 de outubro, mal dando tempo às oposições para improvisar o governador de Santa Cruz, Rubens Costas, como uma alternativa a Evo Morales que concorre pela terceira vez. A Constituição do país proíbe uma segunda reeleição, mas Evo renunciou quase ao final do primeiro mandato com o que, segundo ele, o calendário eleitoral recomeçou do zero. O mandato é de 5 anos e, depois, o Movimento ao Socialismo – MAS tentará de novo aprovar a reeleição ad eternum do seu chefe.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Muitos pacientes e poucos médicos... nos EUA

Um dos efeitos colaterais do novo modelo de saúde democrata agora implementado nos Estados Unidos - conhecido como Obamacare - é o aumento da quantidade de pacientes à procura de atenção médica, potencializando um fenômeno que tem se agravado nos últimos anos: a gradativa redução do número de profissionais em atividade. Isso se deve ao envelhecimento dos médicos e ao maior interesse por outras profissões, o que ocasiona uma diminuição no acesso à carreira. Isso ocorre também com os dentistas, justificando a destinação de recursos significativos, pelo Obamacare, para custear projetos acadêmicos destinados a experimentar novos tipos de profissionais, quem sabe rompendo, no futuro, a reserva de mercado que as atuais profissões da área da saúde usufruem.
Não é, evidentemente, a mesma situação vivida no Brasil, onde o que hoje se observa - crescente pressão da população por atenção médica - tem causas e efeitos bem distintas. Aqui, por um lado, tem havido expansão constante do número de faculdades e de médicos e, por outro lado, o aumento da procura se deve a que os Planos de Saúde - o chamado subsistema suplementar - cada vez ocupam mais espaço na preferência dos consumidores.
A escassez de oferta de médicos e de outros profissionais em lugares distantes e economicamente deprimidos não é uma especificidade do Brasil ou da América Latina. Como se vê no excelente texto de Danielle Ofri - Lots os new patients, too few doctors - publicado pelo New York Times de 16/01/2014, é cada vez mais igualmente uma realidade para os norte-americanos.   Leia Mais.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Armas químicas podem ser destruídas na Síria?

Armas químicas podem ser destruídas na Síria?
Este texto foi escrito em setembro de 2013. Em seguida a proposta feita por Vladimir Putin levou a Síria a aderir ao Tratado de proibição de armas nucleares e ao início da desativação do arsenal sírio de armas químicas sob supervisão da ONU com o compromisso dos Estados Unidos de não mais atacar o país. No entanto, a guerra civil prosseguiu.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Guerra civil no Sudão do Sul

A mais nova nação do mundo, o Sudão do Sul, não sabe o que fazer com a independência a duras penas conquistada quando, em 9 de julho de 2011, separou-se do Sudão sob os aplausos da comunidades internacional. O cordão umbilical, contudo, nunca foi rompido, pois o contencioso representado pelas ricas áreas limítrofes de Abyei, Unity e Alto Nilo permaneceu sempre em aberto (as reservas já comprovadas farão do Sudão do Sul o terceiro maior produtor do sub-sahara africano, após Nigéria e Angola). Difícil, também, tem sido perdoar ou esquecer a história recente. Darfur, a província sudanesa mais a oeste, na divisa com Chade, Líbia e República Centro Africana, foi o palco do genocídio que fez o Tribunal Penal Internacional condenar por crimes contra a humanidade o presidente Omar al-Bashir, que por sinal continua governando, embora não possa sair do país para não ser preso pela Interpol.  


A ONU acaba de aumentar seu contingente na região para 12.500 homens, mas tem fracassado de maneira sistemática nas tentativas de colocar lado a lado as distintas etnias e tribos que secularmente alternam guerra e convivência no território sudanês. De acordo com o manual, inimigos tradicionais devem sentar em volta da mesma mesa, firmar um acordo de paz e, então, passar a dividir o poder como se irmãos fossem. Em julho de 2005 a aplicação dessa teoria transformou o líder rebelde sulista John Garang em vice-presidente do Sudão, mas um mês depois ele morreu num acidente aéreo, o que provocou confrontos entre sulistas e árabes nortistas com centenas de mortos nas ruas de Kartum. Seu substituto, Salva Kiir Mayardiit, bafejado por melhor sorte, não só sobreviveu como selou o acordo de autonomia com al-Bashir e é hoje o presidente do Sudão do Sul.  

Sempre em obediência às diretivas internacionais (a força de paz UNMISS, Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul, com uma maioria de capacetes azuis indianos, dá sustentação ao governo), Kiir, que é da etnia Dinka, dividiu a administração do novo país em dois, entregando a vice-presidência para Riek Mashar, líder dos Nuer, minoritários, mas dominantes nas províncias petrolíferas.
Autoritário, em meio a denúncias de um milionário escândalo financeiro, no último dia 15 Kiir demitiu não só o seu vice como todo o gabinete. Imediatamente Mashar articulou, sem sucesso, um golpe de estado e assumiu o comando de um exército rebelde. A resposta foi a dissolução da Guarda Presidencial até então composta por agentes das duas etnias e o massacre dos Nuer. 

Não há como confundir os integrantes das tribos em luta. Embora sejam todos negros e secularmente dedicados ao pastoreio, os dinkas, famosos por seu porte atlético e beleza física, são gigantes (o povo mais alto da terra) que facilmente alcançam os 2 metros de altura.  Já os homens nuer são identificados pela marca facial - seis linhas paralelas feitas à navalha do alto da testa até o nariz, conhecida como Gaar - que recebem ao chegar à puberdade. O relato de Simon K ao jornal The Guardian reflete bem o padrão das guerras de extermínio racial na África. Capturado ele não conseguiu responder a uma pergunta crucial, feita no idioma dinka: “qual é o seu nome?”. Na cela do posto policial quase no centro de Juba, a capital sul-sudanesa, ele contou 252 nuers e viu os canos das armas que entre as barras das grades nas janelas atiravam, suspendiam a fuzilaria para ver se alguém ainda se mexia e atiravam de novo. Dois dias depois, com a chegada de socorro, Simon K e outros onze tinham sobrevivido imóveis sob os corpos que, deteriorando-se, cada vez mais os sufocavam.
   
A base das Nações Unidas está à beira do colapso, invadida por 20 mil fugitivos do conflito em busca de alimentos, água potável e proteção contra o calor intenso do dia e o frio cortante da noite. Não existem soluções fáceis à vista. Uma intervenção do Conselho de Segurança da ONU não tem viabilidade devido ao bloqueio de China e Rússia, fortes aliados de al-Bashar, e o regime de Kartum pode aproveitar-se do caos e intervir, aliando-se aos nuer de Mashar, para retomar os poços de petróleo que considera serem seus. Por fim, a internacionalização do conflito é eminente. Tropas de Uganda já estão no Sudão do Sul e é cada vez mais instável o quadro político nas vizinhas República Centro Africana e República Democrática do Congo. O governo de Salva Kiir parece afundar depois de receber e desperdiçar bilhões de dólares em ajuda internacional. A delegação africana de alto nível, incluindo o presidente do Quênia e o 1º Ministro da Etiópia, visitou Juba e propôs a cessação das hostilidades e início imediato de diálogos, tentando aliviar a crescente crise humanitária. Resta agora impedir as vinganças e tornar a convivência novamente possível.   

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vinhos ontem e hoje

Tragédia maranhense

Texto de Frei Betto, publicado na página de Opinião do Estado de Minas, analisa o problema dos presídios brasileiros. Leia Mais

Vinhos com ou sem dor de cabeça

Não se trata, aqui, de falar em ressaca. Afinal, você deve respeitar os limites de seu organismo e, por mais que goste de vinho ou de qualquer outra bebida, ingerir apenas a quantidade que seu organismo aceitar sem ultrapassar a barreira da normalidade. Para algumas pessoas, no entanto, até mesmo uma só taça de vinho tinto tem o poder de desencadear, em minutos ou em poucas horas, uma forte dor de cabeça que pode (mas em geral não o faz) provocar náuseas. O fenômeno é tão freqüente que ganhou até nome na literatura médica: é a Síndrome da Dor de Cabeça pelo Vinho Tinto, RWH na sigla em inglês (Read Wine Headache syndrome). A discussão sobre suas causas e significados ganhou ênfase doze anos atrás quando o New York Times repercutiu, quase sem tirar nem por, uma análise publicada na revista Harvard Health Letter. Desde então médicos, químicos, consumidores, enólogos e vinicultores procuram compreender o fenômeno. Em princípio, à exceção dos que sofrem de asma, urticária ou são alérgicas a componentes do vinho respondendo à sua ingestão com sintomas de enxaqueca, não há uma razão clara para a manifestação da RWH que, não obstante, resiste aqui e alhures.

Uma importante corrente de estudiosos afirma que a culpa é do SO2 que atende por vários nomes: anidrido sulfuroso, dióxido de enxofre, sulfito, INS 220 (classificação pelo International Numbering System). É o conservante que permite maior longevidade aos alimentos atuando como antisséptico, antibacteriano e agente clareador relevante inclusive no caso de frutas de balcão e de vinhos brancos que de outra maneira ficariam marrons. Evita a formação de ácido acético que tornaria o vinho avinagrado, mas em doses exageradas pode acidificar o solo e depois, no produto final, gerar um característico cheiro de ovo podre. É conhecida a história de um degustador sueco que provou vários vinhos com odor a fósforo e questionou se a vinícola tinha problemas higiênicos para adicionar tantos sulfitos. Uma vez que o SO2 está presente na casca das uvas, é impossível produzir vinhos absolutamente sem contê-los. Aliado da videira, o enxofre se opõe a parasitos muito vorazes como os fungos míldio e oídio. No processo de vinificação é adicionado ao mosto logo depois do esmagamento das uvas para combater bactérias e leveduras indesejáveis. O vinho normalmente é um meio ácido. Um baixo pH, por volta de 3 (um meio neutro tem pH igual a 7), está associado a uma vida mais longa do vinho e quanto menor o pH menos SO2 lhe será necessário. 

Os efeitos potencialmente prejudiciais à saúde dos sulfitos fizeram com que a FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos impusesse a exigência de que os produtos contendo 10 mg ou mais de SO2 (dez partes por milhão) devem obrigatoriamente fazer constar no rótulo: “contém sulfito” (ou SO2, ou INS 220). Contudo, não há qualquer obrigatoriedade de revelar qual o teor real em cada produto. No Brasil, que segue o padrão americano, a Anvisa aceita que o vinho possa conter até 350mg. Na União Européia o limite máximo é de 160 mg/litro e na Austrália (para vinhos tintos secos) de 250 mg/l. Quanto mais alta a dosagem de SO2 maiores são as chances de que a dor de cabeça se manifeste (assim como em vinhos baratos que costumam adicionar mais açúcar para elevar o teor de álcool que então se torna mais impuro e mais danoso). Algumas aferições de laboratório feitas em estudos brasileiros têm indicado que o teor de SO2 em vinhos tintos nacionais situa-se num patamar de até 200 mg/l, mas isto depende da acidez do líquido e, em última análise, da consciência do produtor. 

A Ingestão Máxima Aceitável (IDA) de sulfitos, segundo a FAO e a OMS, é de 0,7 mg por kg de peso, ou seja, 49 mg para uma pessoa que pese 70 kg. Uma meia garrafa de tinto que contenha apenas 15 mg por litro (15 partes por milhão), por si só proporciona 56 mg de SO2. É importante, ainda, considerar outras fontes de ingestão diária, pois os sulfitos estão em proporções por vezes mais altas, p.ex. em frutas cristalizadas, sucos industrializados, geléias, mostarda, biscoitos, licores, salsichas.

Cada vez mais surgem vinhos naturais (sem sulfitos) e os que, respeitando a natureza como os ditos biológicos, orgânicos ou biodinâmicos, por vezes adicionam quantidades mais baixas do dióxido de enxofre. O Instituto Francês do Vinho (IFV) permite a presença de anidrido sulfuroso até mesmo nos naturais. A ausência de SO2 torna o vinho instável provocando perdas de até 50% da produção, de onde resultam preços finais elevados e de reduzida competitividade no mercado. Juan Carrau, que ainda produz entre outros o Velho do Museu, um ícone brasileiro, quase na divisa com o Uruguai, diz que a condução dos vinhedos orgânicos (e biodinâmicos) é um caminho para atingir vinhos de melhor qualidade em equilíbrio com o meio ambiente e não necessariamente para reduzir o teor de SO2. Ainda assim, felizmente é crescente a oferta de vinhos com pouco ou sem sulfitos no mercado e, uma vez que o ar é o principal fator para abreviar a sua longevidade, surgiram melhores lacres, ceras colocadas acima da rolha e tampas (screw caps) que proporcionam uma mais perfeita vedação. Produtores europeus e norte-americanos têm ofertado vinhos com zero ou baixos teores de sulfitos, como a Frey Vineyards no norte da Califórnia (em Redwood Valley), Roboredo Madeira no Douro com o Carm que tem “SO2 free” no rótulo (importado pela World Wine), ou o Côtes du Rhone Belleruche do mestre das práticas biodinâmicas Michel Chapoutier. E, no Chile, vale lembrar as criações da Nativa Viñedos Orgánicos (estes dois últimos na Mistral).  
                
Um dos mistérios nesta equação é que os brancos, nas mesmas condições (de ingestão moderada), não causam dor de cabeça embora, devido à sua menor resistência à oxidação, requeiram maiores dosagens de SO2. Tal fato tem levado os pesquisadores a apontar outros possíveis culpados para a RWH, como as histaminas, a tiramina e os taninos. Vinhos tintos contém de 20% a 2
00% mais histamina (é produzida pelo organismo e ingerida por meio dos alimentos) do que os brancos e pessoas alérgicas podem ser afetadas pela dilatação e contração dos vasos sanguíneos de onde resulta a dor de cabeça. Já a tiramina, outra amina, que tem sido associada à ocorrência de enxaquecas, parece mais prejudicial em vinhos muito jovens ou naqueles não adequadamente filtrados ou mal estocados. Os taninos, próprios dos tintos, atuam como potentes antioxidantes e servem para conservar, dar cor, substância e aromas ao vinho, mas são liberadores de serotonina, um neurotransmissor (conduz impulsos nervosos e atua no controle da ansiedade, medo, depressão, sono, percepção à dor) que em altos níveis pode provocar dores de cabeça em pessoas sensíveis. É preciso lembrar, ainda, que o álcool ─ com teores que vão desde 7% em um riesling do Mosel ou num vinho verde até 16% em certos gewurztraminer da Alsácia ou zinfandels ─ costuma ser responsável por desidratação e pelas cefaléias que ocorrem logo após a sua ingestão.


É provável que as dores de cabeça sejam, para quem delas sofre com alguma freqüência, o resultado do somatório de vários fatores, cabendo a cada um esforçar-se para identificar o que mais o afeta. Algumas possíveis soluções para casos reais de RWH: a) prefira vinhos brancos; b) prefira vinhos com teor mais baixo de álcool; c) opte por varietais das uvas gamay e pinot noir que são menos tânicas, mas observe se o consumo de chocolates e chá ou outros alimentos que também contém taninos lhe causam os mesmos efeitos; d) experimente tomar, antes do vinho, um comprimido de aspirina ou, se não tiver problemas de pressão alta nem for idoso, uma cápsula de ibuprofen (Advil), consultando seu médico se tiver dúvidas sobre a medicação; e) procure ter acesso a vinhos sem SO2 ou orgânicos/biodinâmicos/biológicos que informem adicioná-lo em baixas quantidades; f) lembre-se de ingerir água entre uma taça e outra, mantendo-se hidratado; g) adapte-se, mas não deixe de usufruir tudo o que um bom vinho pode fazer pela sua saúde e pela sua vida. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

As prisões no Maranhão e no Brasil

Texto de Frei Betto publicado na página de Opinião do Estado de Minas analisa o problema dos presídios brasileiros. No Maranhão tudo passa pelos Sarneys, como mostra a imagem. Leia Mais
Reunião no Fórum Sarney Costa marca início de mutirão carcerário em São Luis (Imagem publicada no jornal O Imparcial - 15/1/2014)

Mais médicos tenta atrair brasileiros

Para contornar problemas gerados pela diferença de pontuação na residência, o Ministério da Saúde promete unificar os critérios do Provab e do novo programa Mais Médicos. Leia Mais  

Novo canal do Panamá em crise

O prosseguimento das obras do novo Canal do Panamá está comprometido. O consórcio responsável pela construção, liderado pela espanhola Sacys Villahermosa, ameaça paralisar a construção (60% já pronta) se não receber 1,6 bilhão de dólares - 50% a mais em relação ao orçamento original. A baía de Miami está sendo dragada para aumentar sua profundidade e portos localizados no Atlântico nos Estados Unidos e em vários países latino-americanos, preparam-se intensamente para funcionar como terminais de transbordo. O Brasil perde competitividade pelos atrasos nas obras dos seus portos da região Norte e pela lentidão em viabilizar as ferrovias Norte-Sil e Transoceânica.  Leia Mais.

NOVO CANAL DO PANAMÁ EM CRISE
El canal de Panamá en piezas de Lego
Canal do Panamá
Foto do jornal "Crítica" - Ciudad de Panamá


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Vinho e saúde: atualizando conhecimentos

Desde a descoberta de que o consumo de vinho era o responsável maior pelo chamado paradoxo francês, ou a constatação epidemiológica de uma baixa incidência de doenças coronarianas em populações com alto consumo de gorduras saturadas na dieta, os estudos a respeito dos efeitos do vinho sobre a saúde se multiplicaram e hoje temos farta informação disponível que nos permite superar dúvidas e afirmar certezas. Não se trata de uma novidade, considerando que a primeira referência ao uso medicinal do vinho está nos papiros egípcios e sumérios de 2.200 A.C. O famoso estudo internacional coordenado pelo professor Salim Yussuf de Ontário em 2004 sobre fatores de risco para Infarto Agudo do Miocárdio, conhecido como Interheart e que revolucionou as práticas de saúde cardiovascular no mundo, constatou os efeitos protetores do consumo moderado de álcool. Em seu número de junho último, o American Journal of Enology and Viticulture publica uma completa revisão sobre o tema (Wine and Health: a Review– http://www.ajevonline.org/content/62/4/471.full) feita por dois mestres no tema, os professores John Pezzuto e Jacquelyn Guilford da Universidade Hawaii at Hilo. O trabalho, subsidiado pelo Instituto Nacional do Câncer dos EUA (do qual os dois são pesquisadores graduados há vários anos), fundamenta-se numa análise de 228 dos mais atuais estudos disponíveis na literatura científica mundial.

As conclusões obtidas não deixam margem a dúvidas, confirmando os benefícios para a saúde advindos do consumo regular e moderado de vinho, particularmente vinho tinto rico em polifenóis (substâncias naturais antioxidantes como o resveratrol que bloqueiam os efeitos nocivos dos radicais livres), que tem sido associado à diminuição do risco para problemas cardiovasculares, diabetes tipo 2 e vários cânceres. Os polifenóis também reduzem a agregação das plaquetas (prevenindo o surgimento de trombos) e as inflamações sistêmicas, além de aumentarem a função endotelial com o que evitam a formação do LDL, o mau colesterol. Embora vários componentes como as antocianinas e os flavonóides tenham uma ativa participação, a chave do processo é o resveratrol presente nas sementes e na casca da uva, por alterar o metabolismo lipídico e inibir a oxidação do LDL, tornando-se um potencial cardioprotetor, ademais de se opor ao crescimento de alguns tumores e agir como anti-inflamatório, neuroprotetor, antibacteriano e antiviral, entre outras características.

Consumo regular e moderado significa a ingestão de uma dose (150 ml) por dia para as mulheres e o dobro disso para os homens, mas é preciso considerar condições individuais como idade, genética, porte, uso de medicamentos. As vantagens deste padrão de consumo são perdidas quando beber vinho é algo apenas eventual (só no fim de semana, ainda que a quantidade total ingerida seja a mesma) ou pesado. Os efeitos positivos para a saúde aumentam quando associados a uma dieta saudável, como a mediterrânea que combina o vinho com uma alimentação rica em frutas, vegetais e grãos integrais. Adicionar vinho à dieta de indivíduos saudáveis, que não fumam, praticam exercícios e têm peso controlado resulta em menor ocorrência de infartos e outras doenças, quando comparados aos abstêmios.

Não há uma resposta fácil para a pergunta: qual vinho é o mais saudável? É possível que os mais tânicos e ricos em procianidina, um tipo especial de polifenol. Um exemplo está nos vinhos tintos do sudoeste da França (Cahors, Bergerac) e da ilha italiana da Sardenha que contém até quatro vezes mais procianidina do que os das demais regiões, uma provável razão para a maior longevidade dos seus habitantes. No todo, vinhos tintos são mais benéficos que os brancos.

Mesmo se fosse viável eleger um determinado vinho como sendo o mais saudável, essa verdade poderia mudar no ano seguinte, pois cada safra é influenciada pelo tipo de solo, clima, inseticidas ou variações sazonais. Em essência duas garrafas do mesmo vinho não têm exatamente a mesma composição e os procedimentos de estocagem e o tempo de envelhecimento depois que é vendido podem alterar seu perfil químico.

O álcool é um reconhecido fator carcinogênico. Não obstante, há evidência de que o consumo moderado de vinho pode diminuir o risco a diversos cânceres, como os de cólon, ovário e próstata. Em pacientes tomando uma taça de vinho ao dia observou-se um menor risco de desenvolver Esôfago de Barrett, um precursor potencial de adenocarcinomas. O artigo proporciona referências detalhadas de estudos especificamente relacionados às interações entre vinho e câncer, assim como para diabetes, hipertensão, efeitos neurológicos, gastrointestinais, entre outros. Enquanto uma ou duas doses ao dia são benéficas, três ou mais podem favorecer a manifestação de sintomas neurodegenerativos, depressão, obesidade, enxaqueca, hipertensão, infarto cardíaco, câncer de mama e demais alterações ligadas ao alcoolismo. A possibilidade de efeitos tóxicos está sempre presente quando não há um rígido controle de contaminantes (resíduos de pesticidas, ácido acético, bactérias, chumbo, etc.) por parte de cada país e de cada região produtora.

O estudo ainda lembra que o vinho não é um substituto para um regime de vida sadio nem para a medicação (e sim um parceiro) eventualmente necessária. Homens e mulheres que consomem vinho de maneira leve ou moderada e que estejam livres de complicações médicas podem, enfim, ficar seguros de que este é um hábito saudável.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A privatização definitiva da saúde?

(Comentário do Blog)

Afinal alguém diz que o Obamacare, o esquema de proteção à saúde dos EUA que está em vigor desde ontem, é péssimo. Assim começa o artigo de Michael Moore abaixo reproduzido.
Ainda assim, é muito melhor do que o regime selvagem em que os americanos viviam, ou do que qualquer das propostas para a saúde originadas dos republicanos, privilegiando o mercado.
 Para entender o que é o regime de "Single Payer" (o Estado como Pagador Único), sugiro a leitura do texto "O que há de novo na saúde pública" neste mesmo Blog.
Esta é uma discussão que, em absoluto, deve ser vista como de interesse exclusivamente dos norte-americanos. Na verdade está inserida num debate global sobre o que a OMS intitula de "Universal Health Coverage" (Cobertura Populacional em Saúde) e que cada vez mais tende a afetar o modelo brasileiro, com as propostas do governo para o Sistema Único de Saúde. Saúde pública ou saúde privada? Leia Mais.

O Obamacare que merecemos
É hora de conseguir o que queremos: atendimento de saúde universal e de qualidade
O Estado de S.Paulo, 06 de janeiro de 2014 | 2h 02

Michael Moore*

O início do ano é também o começo da cobertura de saúde oferecida de acordo com as novas taxas estipuladas pela Lei do Tratamento Acessível, para as quais 2 milhões de americanos se candidataram. Agora que a lei individual está em vigor, quero começar reconhecendo um fato: o Obamacare é péssimo.
Esse é o segredinho sujo que muitos liberais evitaram enunciar publicamente por medo de ajudar os inimigos do presidente num momento em que o acordo pela cobertura de saúde universal precisava de todo o apoio possível. Infelizmente, isso significou que, em vez de culpar empresas como a Novartis, que cobra dos pacientes com leucemia cerca de US$ 90 mil por ano pelo remédio Gleevec, ou diretores executivos como Stephen Hemsley, da seguradora UnitedHealth Group, que ganhou quase US$ 102 milhões em 2009, pelo custo exorbitante do sistema de saúde americano, os democratas defensores do presidente compraram o mito de que os responsáveis pela conta seriam aquelas pessoas que inventavam de fazer colonoscopia e quimioterapia de graça, só por diversão.
Acredito que o início tumultuado do Obamacare - planejamento deficiente, site precário, seguradoras aumentando a cobrança, e o presidente dizendo ao público que todos poderiam conservar o plano de saúde atual quando, na verdade, isso não valia para todos - é o resultado de uma falha fatal: a Lei do Tratamento Acessível é um plano que favorece a indústria dos planos de saúde, implementada por um presidente que sabia em seu coração que um modelo de pagador único semelhante a um Medicare-para-todos era o melhor caminho a seguir. Quando os críticos de direita "denunciam" o fato de o presidente Obama ter apoiado um sistema de pagador único antes de 2004, eles estão dizendo a verdade.
Aquilo que hoje chamamos de Obamacare foi concebido pela Heritage Foundation, um centro de estudos estratégicos conservador, e nasceu em Massachusetts durante o governo de Mitt Romney. O presidente pegou o Romneycare, programa criado para manter intacta a indústria dos planos de saúde, e simplesmente melhorou algumas de suas provisões. Na prática, o presidente estava apenas tentando passar batom no cachorro dentro da casinha presa ao teto do carro de Romney. E nós sabíamos disso.
Já em 2017, estaremos entregando US$ 100 bilhões anuais às seguradoras particulares. Pode apostar que elas vão usar parte desse dinheiro na tentativa de privatizar o Medicare.
Para muitas pessoas, a parte "acessível" da Lei do Tratamento Acessível corre o risco de ser uma piada cruel. O plano mais barato disponível para um casal com renda anual de US$ 65 mil em Hartford, Connecticut, custará US$ 11.800 em pagamentos anuais. E o limite mínimo a partir do qual a seguradora assume os custos será de US$ 12.600. Se ambos tiverem uma doença grave, podem ter de pagar quase US$ 25 mil num único ano. Antes do Obamacare, eles poderiam optar por um seguro mais barato e muito pior, incorrendo potencialmente em custos ilimitados para o próprio bolso.
Ainda assim - seria desonestidade não reconhecê-lo - o Obamacare é uma dádiva divina. Minha amiga Donna Smith, que teve de se mudar para um quartinho na casa da filha aos 52 anos porque os problemas de saúde levaram ela e o marido, Larry, à falência, está agora com outro câncer. Ao se submeter ao tratamento, agora ela será poupada do terror de perder a cobertura e ser excluída do mercado de planos de saúde. Sob o Obamacare, o pagamento dela foi reduzido pela metade, chegando a US$ 456 por mês.
Não é hora de celebrar vitória - e sim partir daquilo que conquistamos para conseguir o que queremos: atendimento de saúde universal e de qualidade.
Aqueles que moram em Estados vermelhos (de maioria republicana) precisam do benefício da ampliação do Medicaid. No curto prazo, os governadores republicanos acreditaram que seria politicamente vantajoso aproveitar a oportunidade oferecida pelas decisões da Suprema Corte tornando a ampliação do Medicaid opcional para os Estados, mas, no longo prazo, isso foi uma estupidez: se esses 20 Estados sustentarem essa posição, acabarão perdendo uma quantia estimada em US$ 20 bilhões em recursos federais anuais - dinheiro que seria destinado aos hospitais e tratamentos.
Nos Estados azuis (de maioria democrata), devemos pressionar por uma opção pública no mercado de seguros - um plano de saúde administrado pelo governo estadual e não por uma seguradora particular. Em Massachusetts, o senador estadual James B. Eldridge luta pela aprovação de uma lei que criaria algo assim. Na Califórnia, alguns condados tentam o mesmo. Montana criou uma solução criativa. O governador Brian Schweitzer, democrata que acaba de chegar ao fim do segundo mandato, criou várias clínicas de saúde para tratar os funcionários estaduais, sem despesas partilhadas nem limites mínimos de cobertura.
Os médicos de lá são funcionários assalariados do Estado de Montana; seu único interesse é a saúde dos pacientes. Se isso parece ser um papel demasiadamente grande a ser desempenhado pelo governo, saiba que Google, Cisco e Pepsi fazem exatamente o mesmo. Todos estão prestando atenção no plano de Vermont prevendo um sistema de pagador único, a vigorar a partir de 2017. Se der certo, isso vai mudar tudo, com vários Estados seguindo o mesmo rumo e criando suas próprias versões da ideia. É por isso que, em breve, o dinheiro da indústria das seguradoras vai inundar Vermont, com o objetivo de esmagar a iniciativa. Os legisladores que vão enfrentar essa batalha precisam de todo o nosso apoio.
Então, mãos à obra. O Obamacare não pode ser consertado pelo presidente que lhe deu nome. Cabe a nós fazê-lo.
*Michael Moore é documentarista. Seu filme Sicko (2007) investiga a indústria americana dos planos de saúde.
TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

domingo, 5 de janeiro de 2014

Névoa de algodão

- Quem está aí?
A pergunta não tinha razão de ser. Ninguém poderia responde-la e ele sabia disto. Sabia-o desde muito tempo, na verdade desde que fora abandonado naquele território sem fim, sem limites e sem vida. Não havia possibilidade de sair, fugir do limbo em que se encontrava e voltar para o lugar de onde viera.
É verdade que, com o passar do tempo, isto deixou de ter tanta importância  pois esquecera de como era antes, restando uma incerteza até mesmo quanto ao fato ¾ até então inconteste ¾ de que ele realmente provinha de alguma parte.
algodão, fundo¾ Quem está ai?, repetiu num fio de voz que, no entanto, tinha força suficiente para ecoar como se fora uma batida num tambor, naquele ar rarefeito que o cercava.
Felizmente aprendera a respirar com cuidado, não permitindo que seus pulmões se saciassem como no começo teimavam em querer. Compreendera bem que se o ar era pouco, seu dever principal se resumia em consumi-lo com modéstia e sem sofreguidão, para durar mais. Desconfiava que mesmo assim não estava fazendo o suficiente e tinha poucas dúvidas de que mais adiante não teria o que respirar. Por isso, todos os dias se dedicava a uma prática que lhe custava um imenso esforço, mas que para o futuro na certa valeria a pena. Aspirava o ar como que em pequenos goles procurando só reter uma mínima parte, a que achava suficiente para manter o próprio organismo funcionando. Culpava-se porque ainda não aprendera a ter este mesmo controle durante o sono, período durante o qual gastava quantidades verdadeiramente absurdas de oxigênio.
Em diversas ocasiões tentara fugir deste que cada vez mais parecia ser o seu destino, inexorável. Caminhara com determinação em todas as direções possíveis. Algumas vezes sem querer andava em círculos de maneira que terminava retornando exato para o ponto de partida até que desistia mesmo sem estar cansado.
Estranho, mas provavelmente graças àquela atmosfera e a uma umidade surpreendentemente baixa, podia caminhar um dia inteiro que os músculos não doíam e não sentia necessidade de parar. Com isto, não precisava fazer exercícios físicos, tarefa que de toda forma seria impensável e fatalmente lhe encurtaria definitivamente a vida, pois em poucos minutos engoliria quase todo o pouco ar disponível.
Outras vezes conseguia traçar uma linha reta imaginária e prosseguia em frente até atingir o fim do seu mundo, uma área totalmente indefinida, sem consistência, onde a neblina se adensava formando algo parecido a uma parede de algodão. O chão começava a ficar movediço na medida em que ele se aproximava da região com a névoa mais densa, junto à parede esbranquiçada. Talvez pudesse saltar sobre o ignoto a fim de agarrar-se a algum apoio na parede, ou quem sabe se o impulso fosse realmente forte, conseguiria ultrapassá-la. Costumava faltar-lhe coragem para tanto, predominando um enorme e invencível medo pelo que o esperava no outro lado.
Sonhava com freqüência cada vez maior com este salto, feito da mais fantástica força de vontade que em qualquer tempo alguém poderia possuir. Retesava os músculos com tanta violência que a dor se tornava quase insuportável e fixava o olhar no infinito como se fora um tigre pronto para dar o bote sobre a vítima. Tornava-se febril, sentia-se arder em chamas ao mesmo tempo em que travava uma luta intensa contra a covardia e contra a prudência, ambas querendo impedi-lo de tomar a única decisão que teria chance de salvá-lo.
O problema era que o sonho não chegava realmente a um fim. Raras vezes ultrapassava o momento do impulso e, mais dificilmente ainda, o salto infernal se concretizava. Quando isto acontecia, sentia uma dor lancinante no peito e as imagens se turvavam, perdendo imediatamente a nitidez. Em duas ocasiões fora possível superar a dor e as trevas, mas as dúvidas não puderam ser esclarecidas. A parede era mais espessa do que imaginara e ao chegar no que deveria ser o outro lado, uma luz  de incrível intensidade o ofuscara de maneira tão absoluta que se vira obrigado a dar-lhe as costas retornando ao nevoeiro para ser rapidamente tragado de retorno ao eterno mesmo começo do sonho. Nessas ocasiões, despertava em um repente, tomado por suor intenso que o banhava da cabeça aos pés mesmo nas noites mais frias. E chorava até consumir-se na desesperança.
Sua audição era tão delicada que nesse sentido poderia perfeitamente comparar-se a um morcego. Por que lhe viera justo a imagem de um morcego? Na certa porque este era o animal que melhor retratava o que ele estava fazendo: verdadeiros vôos na escuridão, guiado por um misterioso radar que ao menos o impedia de chocar-se contra as barreiras invisíveis que sabia existir.
Pensou ter perguntado de novo: “quem está ai?” Na realidade não o fez. Estava cercado por um mundo sem sons, onde os únicos ruídos que costumava ouvir eram os feitos por ele mesmo. A inexistência de animais ou de pessoas, a ausência de rios e de ventos ocupavam todos os espaços. Como ouvir sons se estes não eram produzidos?
Raciocinar, cada vez mais, passou a constituir o seu trabalho principal. Convencera-se de que tudo o mais era inútil, portanto não valia a pena despender qualquer esforço com coisas ou atitudes que sempre o conduziriam ao nada, além de ajudar a consumir o bem mais precioso que ainda possuía.
Dali em diante decidiu dedicar-se a duas atividades fundamentais: pensar e respirar. No primeiro caso, com máxima intensidade; no segundo, com toda moderação possível. Logo, descobriu que não eram tarefas fáceis de serem cumpridas à risca. Distraía-se com assombrosa freqüência como agora, caminhando nevoeiro adentro só para checar a absurda possibilidade de que houvesse alguém rastejando por lá. Seu organismo também trabalhava em sentido contrário a ele próprio, pois como não se cansava, teimava em exigir movimentos: os músculos, principalmente os das pernas de repente começavam a estirar-se e em seguida a flexionar-se de tal forma que se ele o permitisse logo começava a saltitar e, quem sabe até onde isto o poderia levar, a correr qual um maluco qualquer. Os braços eram menos exigentes, mesmo porque era possível mantê-los cruzados e, em último caso, amarrados com umas tiras de plástico que descobrira em cima da caixa grande.
Sentia-se culpado por ter tocado na caixa, levado pela curiosidade irracional que o fizera andar para um lado aparentemente nunca antes trilhado do nevoeiro. Caminhara feito um tonto, sem rumo definido, até que de repente batera em alguma coisa. Fora um acontecimento de certa forma inconcebível porque não se tratava de um monte de areia, o único obstáculo que vez ou outra interrompia o trajeto monótono  percorrido por seus pés.
Retangular e tão alta que lhe chegava praticamente ao peito, a caixa de madeira estava fechada por uma frágil tramela de alumínio. Caso um animal ou uma pessoa tivesse sido preso dentro dela, por certo conseguiria sair depois de pressionar a tampa com um pouco de força, de dentro para fora. Nada ou ninguém aparentemente forçara qualquer dos lados do misterioso objeto. Tudo indicava que estava intacto.
Como teria ido parar ali? Ou será que sempre estivera naquele lugar, até mesmo muito antes da sua chegada? Este pensamento era inquietante, pois com ele se via obrigado a novamente considerar que viera de outra parte, de outro mundo ou de outro nevoeiro. Lembrou-se que já desistira de buscar eventuais origens pessoais, estando inteiramente conformado com a duvidosa existência atual. Logo descartou as preocupações e as dúvidas. Encontrara a caixa, ali estava ela, tão alta que continuava formando uma linha reta exato acima do mamilo esquerdo do peito.
O fato de que o mamilo esquerdo fosse um pouco mais elevado do que o direito intrigava-o sobremaneira, mas esta questão poderia ser esclarecida através do raciocínio mais tarde. Uma de suas narinas sempre parecera mais achatada que a outra, como se alguma vez tivesse levado um murro, e a orelha direita possuía uma dobra a mais que lhe dava um certo aspecto de criatura extraterrestre. Também o joelho... Os pensamentos  novamente se perderam, num triunfo evidente do espírito desatento que o dominava há tantos dias e noites fazendo da vida uma sucessão interminável de imaginações que nunca se concretizavam.
Naquele momento, do mais fundo do seu ser crescia o desejo, a vontade de erguer a mão, mover alguns dedos ¾ dois deles, o polegar e o indicador seriam suficientes ¾  e abrir a caixa para saber o que continha.
Conteve-se a tempo. Afinal, com que direito tomaria tal atitude? Não havia qualquer dúvida de que ela não lhe pertencia. Resolveu ir embora, mas, por via das dúvidas, marcou o caminho com as tiras para ter certeza de que conseguiria voltar até ali algum dia. Não conseguia mais dormir, o que de certa forma podia ser considerado uma vantagem, pois assim ficava livre dos pesadelos que cada vez com maior freqüência o atormentavam. Pensava sem parar na sua descoberta, tentando explicá-la sem sucesso.
A hipótese mais provável era de que a caixa sempre existira ou, pelo menos, existia há muito e muito tempo, não se deteriorando só porque o nevoeiro a protegera contra qualquer agressão. Neste caso, poderia ter guardados dentro de si alguns dos segredos do universo. E se a própria origem da vida ganhasse enfim uma explicação? Claro que se fosse possível descobrir onde e a partir do que exatamente começara a vida, tudo o mais ¾ inclusive o futuro ¾ poderia ser explicado. Será que encontraria alguma alma nesse começo ou mesmo depois dele? Nunca levara a sério a existência de almas, embora concordasse que esta era a explicação mais cômoda para a própria existência humana.
Passou a sofrer e a ficar cada vez mais confuso, alternando sentimentos de medo e de tentação pelo desconhecido. Perdeu a conta de quantas vezes retornou até a caixa. Ia, caminhava em torno dela observando-a na expectativa de que algo acontecesse, mas não tinha coragem de abri-la.
Um dia, não agüentou mais. Num acesso de autêntica loucura correu em desespero, mas em silêncio; jogou-se sobre a tímida fechadura e a forçou num golpe só, surpreendendo-se ao vê-la saltar, descrever uma breve parábola no ar rarefeito até estatelar-se com um baque surdo num ponto impreciso do nevoeiro. Num átimo a tampa da caixa pareceu livrar-se de um incômodo secular, escancarando-se sem pudor algum.
Não sentiu odores nem ouviu qualquer barulho além do estalido e do ranger que acompanharam o rompimento e depois o rápido saltar da tampa.
Ergueu-se na ponta dos pés, embora isto não fosse de fato necessário e olhou dentro da caixa. Lá estava tão somente uma pedra que parecia toda arredondada mesmo que não desse para enxergar sua base. Para vê-la toda teria que entrar e erguê-la com as próprias mãos. Primeiro tentou movê-la de onde estava, forçando da direita para a esquerda e de cima para baixo. Nada. A bicha continuava lá, inarredável.
Mantendo um pé apoiado no chão, lançou o frágil corpo para cima e depois de conseguir algum apoio inclinou-se ao máximo, mas dessa maneira conseguiu quando muito tocar numa área próxima à base da pedra, que devia ter mais ou menos um metro e meio de comprimento e uns sessenta ou setenta centímetros de espessura. Não era grande e, no entanto, não se movia um milímetro sequer para qualquer lado por mais que ele empurrasse. Entrar poderia representar um grande risco. Seria um desafio definitivo ao poder do desconhecido.
Retornou uma vez mais à sua cama improvisada, dessa feita disposto a esquecer a fantástica aventura em que se metera. Começou a dar-se conta de que tudo aquilo poderia não ser real. Ele próprio seria real? No fundo, não tinha como assegurar-se da própria existência. Talvez já tivesse morrido. Não que acreditasse nessas coisas de vida após a morte, feita de céus e infernos com intermináveis andanças e assombramentos, mas como explicar a situação em que se encontrava?
¾ Quem está ai? ¾, tornou a perguntar num sussurro ao ter a nítida sensação de um súbito movimento atrás de si.
Virou-se e correu, correu no encalço do seu próprio fantasma. Se ainda fosse possível comportar-se racionalmente, ficaria imóvel à espera de um sinal mais nítido de realidade. Não sabia se havia algo, não sabia de mais nada, só queria chegar a algum fim, a algum destino, a qualquer descoberta. Enquanto suas pernas o levavam cada vez mais depressa para o fundo do nevoeiro, sentia-se ofegante e terrivelmente culpado por estar consumindo tal quantidade de oxigênio naquela correria insana.
O encanto que o obrigara à disparada cessou num repente. Sem surpresa constatou que viera parar novamente ao lado da caixa. Encontrara-a sem necessidade de seguir a trilha de plástico. Dessa feita não fora ele quem a encontrara e sim ela que o puxara até ali. Quis fugir, mas para onde iria? Tentou deixar abandonar-se, nada mais pensar e não o conseguiu. Seu cérebro parecia decidido a nunca mais deixá-lo em paz.
Subitamente sentiu uma incontida irritação tomar conta de todo seu ser. Esta era uma surpreendente novidade: a capacidade que o organismo demonstrava de reagir a estímulos externos de qualquer tipo. No caso eram estímulos negativos, desagradáveis. Procurou recordar a última vez em que ficara zangado, triste ou alegre com alguma coisa, mas a memória teimava em trai-lo, mostrando somente um grande vazio de lembranças, o mesmo vazio que o acompanhava desde que se dera conta de estar num nevoeiro sem saída.
Começou a escalar a caixa. Primeiro erguendo a perna direita, jogando-a por sobre um dos bordos, em seguida apoiando as duas mãos numa das laterais para finalmente alçar o corpo inteiro, voar como um velho pássaro e cair cambaleante com as pernas abertas tendo a pedra embaixo, sem a tocar em nenhum instante. Pronto, agora teria de erguê-la. Isto parecia óbvio e inevitável mesmo porque a desconhecida energia que o conduzira até aquele ponto não parecia satisfeita.
Já não perguntava “quem está ai?”. Não era mais preciso porque chegara ao seu destino, sabia-o bem. Aquela caixa e aquela pedra lá dentro eram afinal o motivo, a explicação para a sua vida dentro da névoa, para a ausência de tudo, para o abismo e a parede de algodão. Como no momento que antecede a morte, quis enxergar um resumo da própria existência. Parece que houve um espoucar como se fosse o flash de uma câmera, mas de novo o que viu foi o “fog” vazio de tudo. Abaixou-se pouco a pouco até colocar com firmeza os dedos sob a pedra, nos dois lados, perto dos extremos. As palmas das mãos começaram a esquentar, avermelhar-se e arder. Suportar o abrasamento um minuto, um instante a mais se transformou numa tortura. Tentou largar a pedra. Impossível, constatou horrorizado. Estavam unidos e transformados em uma só criatura ou em uma única rocha.
Só uma alternativa lhe restara. Com as mãos já quase em carne viva, pareceu renascer com a força de um Hércules e num arranco tremendo levantou a pedra caindo de costas contra a parede oposta.
O espetáculo que se seguiu foi indescritível. Aparentemente liberara uma espécie de engenho ou até mesmo um ser com gigantesca capacidade de sucção. De imediato começou a formar-se imenso redemoinho, muito parecido ao que surge por efeito de um tornado. Um rumor surdo e intenso acompanhava a agitação cada vez maior de todo o ar em volta.
Curioso que nada o atingia. Era um observador privilegiado e aos poucos começou a entender o que de fato acontecia. A força contida na cratera do fundo da caixa estava absorvendo com incrível rapidez o nevoeiro, obrigando-o a esvair-se e a consumir-se sem deixar rastro ou lembrança.
Quando toda a névoa desapareceu, sentiu os braços e as mãos, que não mais ardiam, serem novamente comandados pela força invisível, levando-o a dar novo salto e a colocar a pedra exatamente na sua posição original. Ato contínuo, tanto o rumor quanto o redemoinho cessaram. Algo agora o empurrava para fora.
Obedeceu de boa vontade, mesmo porque do outro lado o esperava um céu azul e uma pradaria de beleza arrebatadora. Encantado, caiu e rolou pela grama irretocável, deliciando-se. Abriu os olhos e viu uma bela mulher que o fitou com ternura e beijou seus lábios. A caixa desaparecera, mas teria de fato algum dia ou em algum lugar existido?




(*) : Vitor Gomes Pinto, escritor, em 02/2005

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Emergentes nas ruas

Vitor Gomes Pinto

Escritor. Analista internacional

Duas constatações são determinantes quando se observa o que hoje acontece nas ruas: jovens pertencentes a famílias de classe média têm sido, historicamente, ao menos os iniciantes das revoluções e o extraordinário crescimento econômico que beneficiou o mundo a partir dos anos 1970 resultou numa explosão desse estrato econômico nos países antes periféricos. Não parece diferente, embora ainda esteja longe do que se poderia chamar de uma verdadeira revolta popular, o caso do Brasil atual. De cada dez manifestantes derramados pelas vias das principais cidades brasileiras nas últimas semanas, nove têm diploma ou estão cursando o ensino superior ou médio e cinco ganham acima de 5 salários-mínimos (R$ 3.390,00). Desde 2003, segundo o IPEA, cerca de 40 milhões de pessoas ascenderam da classe D para a classe C que já responde por 55% da população. São os filhos dessa categoria emergente que, agora, dizem que querem mais, que não estão satisfeitos com o pouco que lhes foi concedido em troca dos impostos que passaram a pagar. Não se sentindo representados pelos políticos, há tempos pedem serviços públicos eficientes, transporte, escolas, atenção à saúde de qualidade e a preços que possam pagar. Em resposta receberam estádios de futebol e uma sucessão interminável de casos de corrupção sem a punição final dos corruptos.

A onda de protestos que desde 2011 já alcançou mais de vinte países não se limitou à primavera árabe e às nações mais afetadas pela crise européia, chegando a New York, Santiago do Chile, Cidade do México, a Israel, Indonésia, Canadá, Bulgária e Rússia. São movimentos cíclicos, agora acelerados ao máximo pelas facilidades de comunicação via internet, cuja origem remonta à Primavera dos Povos de 1848 que na França derrubou a monarquia fundando a 2ª. República e logo repercutiu em meia centena de países com as bandeiras do combate aos regimes autocráticos, à falta de representação popular e à crise econômica. Foi o ano da Praieira em Pernambuco onde o Manifesto ao Mundo escrito pelos republicanos liberais Pedro Ivo e Borges da Fonseca pedia direitos para todos, o federalismo e até o fim do poder moderador de dom Pedro II. Modernamente as referências mais fortes começam em 1968 com as lutas libertárias, entre outros, dos jovens franceses, alemães, italianos, poloneses, tcheco eslovacos (cuja revolução terminou esmagada pelos tanques soviéticos em Praga) e brasileiros que sofreram a ocupação militar da UNB, UFMG, Mackenzie, mas fizeram a passeata dos cem mil no Rio de Janeiro. Logo, em 1989 veio o Outono das Nações com o colapso do comunismo e a derrubada do Muro de Berlim. Aos poucos o grande capital tornou-se o principal inimigo. A falência do banco Lehman Brothers em 2008 marcou o final do período de euforia econômica, originando três anos depois o Occupy Wall Street no coração do capitalismo.

Para o universo das comunicações digitais a revolução já está acontecendo. Segundo o Ibope, 91% dos manifestantes brasileiros se engajaram através das redes sociais. Na China são centenas de milhões de pessoas que se comunicam pelo Sina Weibo (o Twitter chinês), acumulando uma energia crítica que logo não poderá mais ser contida. Marchas e bloqueios podem ser decididos com incrível agilidade fazendo com que os jovens cheguem aos locais marcados bem antes da polícia ou dos militantes de sindicatos e partidos políticos que com suas pesadas estruturas não conseguem acompanhar a nova moda e são superados rapidamente. Mas há o outro lado da medalha: os movimentos se tornam mais vulneráveis a serviços de inteligência cada vez mais profissionalizados e protestos de massa podem ser dificultados não pela censura e sim pelo congestionamento das linhas. Sob regimes ditatoriais ou autoritários, como no caso de Rússia, China, Arábia Saudita, Turquia, os protestos estão sendo controlados pelas ameaças e pelas botas dos gendarmes. Por quanto tempo? Uma lição sempre repetida nessas revoltas é de que é mais fácil organizar os movimentos de rua do que mantê-los. Espanha, onde os indignados não impediram a volta do Partido Popular ao poder, Tunísia, Líbia, Egito são exemplos de mudanças de curto prazo para pior no comando central (Napoleão III reconstituiu o império francês e os Cavalcanti e seus aliados gabirus retomaram o poder no Recife dos idos do século XIX).  Não obstante, é indiscutível, por um lado, que o mundo está sendo contagiado por uma nova febre que é mais ou menos revolucionária dependendo do país e, por outro lado, que ainda é cedo para dizer que resultado terá.

No Brasil, os analistas parecem concordar em que há desafios importantes a serem superados pelo movimento das ruas: a) definir uma pauta básica de objetivos factíveis a serem alcançados passo a passo, fugindo de temas muito específicos como as lutas por igualdade de gênero e raça; b) estabelecer alguma forma de representação (hoje cada líder de grupo tem uma pauta particular e outra geral) para que os partidos de sempre não voltem a atuar como os únicos representantes do povo; c) evitar a cooptação por um sistema que está tomado pela dinâmica da autopreservação e pela corrupção; d) controlar seus líderes para que não aprendam a malandragem dos políticos tornando-se iguais a eles; e) superar a clássica divisão que caracteriza a classe média, dando-lhe um motivo para que atue de maneira solidaria já nas eleições de 2014; f) manter vivo o movimento baseado, de ora em diante, em alianças e em ações não necessariamente de grande porte, mas regulares. Resta a constatação de que, como desejou Aldous Huxley, estamos iniciando um mundo novo. O Brasil afinal despertou, superando os efeitos do sonho anestésico no qual sobreviveu nos últimos anos. É verdade que não existe um líder para carregar consigo a população, mas talvez ele nem seja mais necessário caso os anseios das ruas se tornem irresistíveis.