Armas químicas podem ser destruídas na Síria?
Este texto foi escrito em setembro de 2013. Em seguida a proposta feita por Vladimir Putin levou a Síria a aderir ao Tratado de proibição de armas nucleares e ao início da desativação do arsenal sírio de armas químicas sob supervisão da ONU com o compromisso dos Estados Unidos de não mais atacar o país. No entanto, a guerra civil prosseguiu.
Vitor Gomes Pinto
O cenário das relações internacionais pode estar
sofrendo significativas mudanças diante das duas novidades da última semana – a
proposta russa de desativação do arsenal de 1.000 toneladas de armas químicas
da Síria e o provável primeiro encontro entre os presidentes norte-americano e
iraniano em Nova Iorque desde a revolução dos ayatolás de 1979. Até onde as
esperanças de que a diplomacia se imporá aos esforços de guerra se justificam?
Afinal, a reconhecida revista FP (Foreign Policy) abriu seu texto sobre o plano
de Putin para a Síria dizendo que só há um problema: sua concretização é
praticamente impossível. Caso Assad de fato forneça uma listagem completa de
seus estoques com as respectivas posições, a desativação teria que ser feita no
próprio local, pois não é seguro transportar cargas altamente sujeitas a
ataques guerrilheiros a um ponto central a ser definido provavelmente em algum
país fronteiriço. Isso exige a presença de especialistas militares (americanos?
russos?), o fim da brutal guerra civil ou pelo menos um cessar-fogo levado a
sério pelas forças litigantes e uma ativa cooperação por parte de Damasco.
A experiência e a história não fornecem boas
notícias. Os Estados Unidos usaram armas químicas contra a Alemanha na 1ª.
Guerra e a partir daí montaram um arsenal que no auge chegou a 30 mil
toneladas, até que Richard Nixon renunciou ao seu uso em 1969. Hoje, 44 anos
após e US$ 35 bilhões gastos no processo, a informação é de que 10% ainda não está
destruído, restando as instalações de Kentucky e Colorado. A Organização para a
Proibição das Armas Químicas – OPAQ – nos últimos 16 anos supervisionou a
destruição de pouco mais de 70 mil toneladas em sete países (além dos EUA, 100%
na Albânia, Coréia do Sul e Índia, 2/3 na Rússia, 85% na Líbia e sem detalhes
no Iraque). Até a convenção internacional de 1997, Reino Unido, URSS e Alemanha
lançavam suas armas químicas nas profundezas do mar Báltico junto à paradisíaca
ilha sueca de Gotland, um processo que por muito tempo contaminou pescadores
que se arriscaram na região. O Iraque em 1991 improvisou, queimando e
explodindo projéteis, foguetes e bombas em fossas abissais, mas por razões
ambientais métodos similares não mais são permitidos pela ONU. A Líbia
comprometeu-se, nove anos atrás, voluntariamente a eliminar seus estoques de
gás mostarda e jogou-os no deserto para em seguida esmigalhá-los sob as
lagartas dos tanques, mas recentemente informou ter encontrado centenas de
artefatos que nunca haviam sido declarados. Assad pode seguir os passos de
Sadam Hussein e de Muamar Kaddafi, mas há de recordar que ambos após entregarem
suas armas mais letais acabaram sendo assassinados.
Tecnologia
para eliminar armas químicas está disponível, mas tem alto custo e exige tempo.
Modernamente pratica-se a detonação a frio ou a quente. Na primeira a munição é
envolvida com bolsas de água e colocada em câmaras contendo uma armadura
recheada de explosivos. É uma “bang box” (caixa explosiva testada com sucesso
pelos ingleses) cujos resíduos são bombeados por meio de potentes filtros e
colchões de carbono. No método a quente a munição é colocada num forno a 6000C
quando as moléculas tóxicas se rompem. Empregado na Albânia, consumiu com 16
toneladas de gás mostarda durante 6 meses. Embora a empresa sueca Dynasafe assegure
que hoje os resultados são bem mais rápidos, a melhor e mais barata solução
parece ser a neutralização, praticada originalmente pelos russos para diluir os
agentes químicos até torná-los seguros. Os Estados Unidos desenvolveram um
sistema descartável de hidrólise com armazenagem em tanques de titânio que
processa 25 toneladas por dia, o que permitiria destruir os estoques sírios em
um ano. Agentes químicos a granel são mais simples de lidar e podem ser
incinerados.
Embora não se tenha notícia de que um inspetor
encarregado de desarmar armas químicas tenha perdido a vida durante o trabalho,
é inegável seu alto risco por envolver as mais tóxicas substâncias produzidas
pelo homem. Jean Pascal Zanders, especialista ligado à OPAQ, diz não saber até
que limite a Organização arriscará a vida de seus inspetores se a guerra civil
não for interrompida na Síria, onde os depósitos estão escondidos exatamente nas
áreas de conflito. Cada artefato (bombas, foguetes, minas terrestres, cartuchos
de artilharia, morteiros, precursores) terá de ser catalogado recebendo um
código de barra e um selo que emitirá um som de alerta quando violado e os
locais de armazenagem, convenientemente isolados e protegidos, terão câmeras de
controle remoto para monitoramento pela ONU. Essas tarefas de simples
identificação são em princípio mais factíveis se houver a colaboração do
governo e podem anteceder a destruição das armas que certamente levará alguns
anos até ser concluída.
Obama informou que tem trocado cartas com o recém
eleito presidente iraniano, o moderado Hassan Rouhani, que ainda neste mês de
setembro estará na reunião da ONU em território americano. Febris negociações
envolvendo o Secretário de Estado John Kerry, o ministro de relações exteriores
russo Sergey Lavrov e as diplomacias iraniana, israelense e das grandes
potências esforçam-se em construir uma agenda de reunião cujo resultado poderá
ser a abertura de um caminho para aliviar temporariamente as tensões no Oriente
Médio.

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