Peru:
Castillo não é o culpado pela crise permanente
Vitor
Pinto
Analista
internacional. Autor de “Guerra en los Andes” – Ed. Abya Yala, Quito, 2. Ed.
Pedro
Castillo, um modesto professor e camponês de Chota na província sulista de
Cajamarca, filho de pais analfabetos, que subitamente viu-se guindado à
presidência do Peru, um país de 34 milhões de habitantes, desesperadamente
necessitava de apoio e de amigos, mas não os encontrou e após 495 dias viu-se
deposto por um Congresso que nunca se mostrou confiável e é, na verdade, um
ninho de jararacas.
Inexperiente,
fez um curto e desastroso governo. Tentou de tudo: da extrema esquerda, à
esquerda, logo para a direita e então a extrema direita; que mais não fizeram exceto
exigir-lhe cargos e participação nos contratos de obras e serviços. Ao final
estava nas mãos de uma 1ª. Ministra independente, Betty Chávez Chino, que
também não ajudou. Nomeou nada menos que 78 ministros, um a cada 6,3 dias e sua
proposta de discutir uma nova Constituição não foi sequer apreciada pelo
Parlamento que, ao contrário, aprovou a Lei 31355 em outubro de 2021 com um só
artigo que não permitia a apresentação de propostas de mudança constitucional e
na prática terminava de manietar completamente o Executivo, impedindo-o de
governar.
Uma
das particularidades que mais lhe agradavam era a cerimônia de juramento de
aceitação da Constituição dos novos ministros. O pobre do nomeado apresenta-se
e ajoelha num patíbulo tendo um enorme crucifixo à esquerda, a bandeira peruana
à direita e o presidente em pé à frente. A cerimônia, um resquício medieval do
poder da igreja católica, está na imagem abaixo, agora com o preito sendo
ofertado à nova presidente.
Não
satisfeitos, os congressistas passaram a dedicar todo seu tempo à tarefa de
derrubá-lo do governo. Dois pedidos de impeachment fracassaram, mas o terceiro
teve sucesso. Num Parlamento com 130 cadeiras, o partido Perú Libre de
Castillo elegeu apenas 37 deputados e, mesmo assim, em seguida sofreu uma cisão,
dividindo-se em duas alas, das quais só o Bloque Magisterio seguiu
apoiando o presidente. Outros 40, de agremiações de centro, adotaram um
comportamento camaleônico, negociando vantagens passageiras para votar contra o
impeachment que pela legislação nacional requer 2/3 de suporte, ou seja, 87
votos. Os restantes 53 deputados são de direita ou votam com ela.
Figura
relevante na política peruana é Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto
Fujimori. Ela, que recentemente esteve presa por corrupção ligada à empresa
brasileira Odebrecht, perdeu as três últimas eleições à presidência por mínimas
diferenças para, de imediato, lançar seu partido Fuerza Popular (ocupa
24 cadeiras no Parlamento) ferozmente contra o presidente eleito forçando, em
geral com sucesso, sua queda.
A
queda de um presidente
A
desmoralização do presidente, dia após dia desde a posse em julho de 2021
martelada pela oposição radical, tornou-se incontornável. Um dos muitos
ex-ministros (José Perez Guadalupe, do Interior), ao sair acusou-o de dirigir
uma “ineptocracia”. Quando, em fevereiro de 22 ele resolveu abandonar o
sombrero de paja de palma (palha) típico de sua Cajamarca que lhe fazia o
ridículo por onde ia, o conhecido analista político Augusto Rodrich comentou:
“o problema é que sacou o sombrero, mas não as ideias que estavam por
debaixo do sombrero”. No clímax do desrespeito, os ricos perdem a
compostura e o chamam de “cholo de mierda”.
O
único a reagir à altura em 7 de dezembro último foi o mexicano Manuel López Obrador
que criticou duramente a direita peruana por deixar sem opções a um presidente
eleito pelo povo. De fato, quando a maioria congressual contra si se tornou
evidente na 3ª moção de impedimento, sem qualquer chance de seguir governando,
Castillo apelou para a derradeira opção: foi para a TV e declarou que estava
fechando o Congresso e implantando um regime de exceção no qual passaria a
governar por decreto. A exemplo de quase tudo em sua administração esse foi um
improviso a mais.
Castillo
acreditou que teria o respaldo das Forças Armadas (seu comandante declarou que
jamais o presidente lhe pedira para intervir), do seu gabinete no qual ninguém
ficou a seu lado por sequer os ministros terem sido informados da decisão do
chefe, e do povo uma vez que embora ele próprio tivesse só 31% de aprovação nas
pesquisas de opinião, o Congresso era rejeitado por nove em cada dez peruanos.
Sem organização para tanto, tudo deu errado.
Ele
ainda tentou fugir rumo à embaixada mexicana, mas foi pego e encarcerado
(atualmente cumpre pena de 18 meses de prisão preventiva no presídio de
Barbadillo, arredores de Lima, onde já está Alberto Fujimori). A acusação é de
que tentara um Golpe de Estado. Sem dúvida foi seu derradeiro erro, mas o fez
claramente por estar acuado, porque os congressistas – temendo perder seus
mandatos – não lhe deixaram alternativa. Esta, aliás, é a posição defendida
pela massa camponesa que nas ruas e nas estradas pressiona pelo afastamento de
Dina, mesmo estando claro que a volta do atrapalhado Castillo não mais
acontecerá.
Economia
se salva e conflito mina poder de Boluarte
Curiosamente
a economia peruana segue de vento em popa. Depois de cair em 2020 pela
pandemia, voltou a crescer 13% em 2021 e 2,8% em 22. O Peru foi a economia que
mais cresceu na América Latina nos últimos 20 anos, à exceção do Panamá. E isso
apesar da intensa instabilidade política. Analistas do setor argumentam que a
chave está num Banco Central autônomo com política monetária independente em
relação à política fiscal e sempre dirigido por Julio Velarde. Ademais do
equilíbrio orçamentário, o fato de o país pertencer à Aliança do Pacífico
dá-lhe estabilidade, sob reservas internacionais que permanecem consideráveis.
A
instabilidade política vem da ditadura de Fujimori e Montesinos dos anos 90.
Pelo caminho, o presidente Alan García, também implicado no escândalo
Odebrecht, suicidou-se. Mais recentemente o país degringolou após a renúncia de
PPK (Pedro Pablo Kuczynski) em 2018 e desde então já são 6 presidentes. Um
deles, Manuel Merino que era presidente do Congresso, assumiu a presidência
numa 3ª. feira e saiu no domingo imediato em novembro de 2020. Na raiz, os
problemas são sempre os mesmos: corrupção, má gestão e os políticos que fazem
do Congresso um palco reacionário de negócios.
Contudo,
a vitória de Pedro Castillo deu-se pelo maciço apoio da população camponesa que
perfaz 21% dos peruanos (hoje 7,2 milhões) e agora se revolta bloqueando as
grandes e pequenas carreteras (estradas), a começar pela Pan-Americana e
Central. No informe mais atual eram 120 pontos críticos bloqueados no país.
O
epicentro do conflito, no qual a polícia e o exército já mataram 62 civis nos
primeiros 45 dias do governo da vice Dina Boluarte (empossada como presidente
interina que promete antecipar as eleições, mas governa como se quisesse
completar o mandato), está no sul do país, nas origens do presidente deposto.
“Castillo
foi tão maltratado quanto nós o somos habitualmente” diz uma ativista em Puno,
na fronteira com a Bolívia onde a principal atração é o mais alto lago do
mundo, o Titicaca com suas ilhas flutuantes feitas de junco (totora)
pelos índios Uros. A belíssima Cusco virou uma cidade fantasma sem os turistas
que daí acessam Macchu Pichu, isolada desde que a estrada de ferro foi
danificada e interrompida.
Como
se estivesse numa guerra real, o Ministro da Defesa negocia a criação de
corredores humanitários para retirar vítimas. O Peru, sob estado de emergência,
aguarda. Dina Boluarte obteve do Congresso uma moção de apoio, mas cresce a
pressão para que renuncie como única solução para o impasse.
As
Forças Armadas intervieram na Universidade de San Marcos, a principal do país,
alegando solicitação da reitora. Os estudantes se estruturam para realizar uma
nova Marcha de los 4 Suyos, numa homenagem às quatro regiões em que se
dividia o império Inca no século XVI e repetindo a que se realizou no ano 2000
pouco antes da queda e fuga de Fujimori.*

Pedro
Castillo, presidente do Peru, cassado em 7/12/2022, com seu sombrero
chotano

Lima,
janeiro/2023. Com a bandeira peruana nas mãos a mulher desafia as tropas que no
governo Dina Boluarte já mataram 62 civis nos primeiros 45 dias de
mandato (imagem – www.vozdeamerica.com)

Ministro faz juramento ao tomar
posse ajoelhando perante o crucifixo e a presidente Boluarte, como se no século
XII estivesse.
*. Para melhor compreender a situação peruana, vide textos
anteriores deste site:
https://www.mundoseculoxxi.com.br/2022/04/2022-04-09-peru-em-nova-encruzilhada/
https://www.mundoseculoxxi.com.br/2020/11/2020-11-18-a-tragedia-politica-peruana/
