Vitor Gomes

Vitor Gomes Pinto, Escritor e doutor em saúde pública

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domingo, 29 de janeiro de 2023

 

Peru: Castillo não é o culpado pela crise permanente

Vitor Pinto

Analista internacional. Autor de “Guerra en los Andes” – Ed. Abya Yala, Quito, 2. Ed.

 

Pedro Castillo, um modesto professor e camponês de Chota na província sulista de Cajamarca, filho de pais analfabetos, que subitamente viu-se guindado à presidência do Peru, um país de 34 milhões de habitantes, desesperadamente necessitava de apoio e de amigos, mas não os encontrou e após 495 dias viu-se deposto por um Congresso que nunca se mostrou confiável e é, na verdade, um ninho de jararacas.

Inexperiente, fez um curto e desastroso governo. Tentou de tudo: da extrema esquerda, à esquerda, logo para a direita e então a extrema direita; que mais não fizeram exceto exigir-lhe cargos e participação nos contratos de obras e serviços. Ao final estava nas mãos de uma 1ª. Ministra independente, Betty Chávez Chino, que também não ajudou. Nomeou nada menos que 78 ministros, um a cada 6,3 dias e sua proposta de discutir uma nova Constituição não foi sequer apreciada pelo Parlamento que, ao contrário, aprovou a Lei 31355 em outubro de 2021 com um só artigo que não permitia a apresentação de propostas de mudança constitucional e na prática terminava de manietar completamente o Executivo, impedindo-o de governar.

Uma das particularidades que mais lhe agradavam era a cerimônia de juramento de aceitação da Constituição dos novos ministros. O pobre do nomeado apresenta-se e ajoelha num patíbulo tendo um enorme crucifixo à esquerda, a bandeira peruana à direita e o presidente em pé à frente. A cerimônia, um resquício medieval do poder da igreja católica, está na imagem abaixo, agora com o preito sendo ofertado à nova presidente.

Não satisfeitos, os congressistas passaram a dedicar todo seu tempo à tarefa de derrubá-lo do governo. Dois pedidos de impeachment fracassaram, mas o terceiro teve sucesso. Num Parlamento com 130 cadeiras, o partido Perú Libre de Castillo elegeu apenas 37 deputados e, mesmo assim, em seguida sofreu uma cisão, dividindo-se em duas alas, das quais só o Bloque Magisterio seguiu apoiando o presidente. Outros 40, de agremiações de centro, adotaram um comportamento camaleônico, negociando vantagens passageiras para votar contra o impeachment que pela legislação nacional requer 2/3 de suporte, ou seja, 87 votos. Os restantes 53 deputados são de direita ou votam com ela.

Figura relevante na política peruana é Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori. Ela, que recentemente esteve presa por corrupção ligada à empresa brasileira Odebrecht, perdeu as três últimas eleições à presidência por mínimas diferenças para, de imediato, lançar seu partido Fuerza Popular (ocupa 24 cadeiras no Parlamento) ferozmente contra o presidente eleito forçando, em geral com sucesso, sua queda. 

 

   

A queda de um presidente

A desmoralização do presidente, dia após dia desde a posse em julho de 2021 martelada pela oposição radical, tornou-se incontornável. Um dos muitos ex-ministros (José Perez Guadalupe, do Interior), ao sair acusou-o de dirigir uma “ineptocracia”. Quando, em fevereiro de 22 ele resolveu abandonar o sombrero de paja de palma (palha) típico de sua Cajamarca que lhe fazia o ridículo por onde ia, o conhecido analista político Augusto Rodrich comentou: “o problema é que sacou o sombrero, mas não as ideias que estavam por debaixo do sombrero”. No clímax do desrespeito, os ricos perdem a compostura e o chamam de “cholo de mierda”. 

O único a reagir à altura em 7 de dezembro último foi o mexicano Manuel López Obrador que criticou duramente a direita peruana por deixar sem opções a um presidente eleito pelo povo. De fato, quando a maioria congressual contra si se tornou evidente na 3ª moção de impedimento, sem qualquer chance de seguir governando, Castillo apelou para a derradeira opção: foi para a TV e declarou que estava fechando o Congresso e implantando um regime de exceção no qual passaria a governar por decreto. A exemplo de quase tudo em sua administração esse foi um improviso a mais.

Castillo acreditou que teria o respaldo das Forças Armadas (seu comandante declarou que jamais o presidente lhe pedira para intervir), do seu gabinete no qual ninguém ficou a seu lado por sequer os ministros terem sido informados da decisão do chefe, e do povo uma vez que embora ele próprio tivesse só 31% de aprovação nas pesquisas de opinião, o Congresso era rejeitado por nove em cada dez peruanos. Sem organização para tanto, tudo deu errado.

Ele ainda tentou fugir rumo à embaixada mexicana, mas foi pego e encarcerado (atualmente cumpre pena de 18 meses de prisão preventiva no presídio de Barbadillo, arredores de Lima, onde já está Alberto Fujimori). A acusação é de que tentara um Golpe de Estado. Sem dúvida foi seu derradeiro erro, mas o fez claramente por estar acuado, porque os congressistas – temendo perder seus mandatos – não lhe deixaram alternativa. Esta, aliás, é a posição defendida pela massa camponesa que nas ruas e nas estradas pressiona pelo afastamento de Dina, mesmo estando claro que a volta do atrapalhado Castillo não mais acontecerá.

Economia se salva e conflito mina poder de Boluarte

Curiosamente a economia peruana segue de vento em popa. Depois de cair em 2020 pela pandemia, voltou a crescer 13% em 2021 e 2,8% em 22. O Peru foi a economia que mais cresceu na América Latina nos últimos 20 anos, à exceção do Panamá. E isso apesar da intensa instabilidade política. Analistas do setor argumentam que a chave está num Banco Central autônomo com política monetária independente em relação à política fiscal e sempre dirigido por Julio Velarde. Ademais do equilíbrio orçamentário, o fato de o país pertencer à Aliança do Pacífico dá-lhe estabilidade, sob reservas internacionais que permanecem consideráveis.

A instabilidade política vem da ditadura de Fujimori e Montesinos dos anos 90. Pelo caminho, o presidente Alan García, também implicado no escândalo Odebrecht, suicidou-se. Mais recentemente o país degringolou após a renúncia de PPK (Pedro Pablo Kuczynski) em 2018 e desde então já são 6 presidentes. Um deles, Manuel Merino que era presidente do Congresso, assumiu a presidência numa 3ª. feira e saiu no domingo imediato em novembro de 2020. Na raiz, os problemas são sempre os mesmos: corrupção, má gestão e os políticos que fazem do Congresso um palco reacionário de negócios.

Contudo, a vitória de Pedro Castillo deu-se pelo maciço apoio da população camponesa que perfaz 21% dos peruanos (hoje 7,2 milhões) e agora se revolta bloqueando as grandes e pequenas carreteras (estradas), a começar pela Pan-Americana e Central. No informe mais atual eram 120 pontos críticos bloqueados no país.

O epicentro do conflito, no qual a polícia e o exército já mataram 62 civis nos primeiros 45 dias do governo da vice Dina Boluarte (empossada como presidente interina que promete antecipar as eleições, mas governa como se quisesse completar o mandato), está no sul do país, nas origens do presidente deposto.

“Castillo foi tão maltratado quanto nós o somos habitualmente” diz uma ativista em Puno, na fronteira com a Bolívia onde a principal atração é o mais alto lago do mundo, o Titicaca com suas ilhas flutuantes feitas de junco (totora) pelos índios Uros. A belíssima Cusco virou uma cidade fantasma sem os turistas que daí acessam Macchu Pichu, isolada desde que a estrada de ferro foi danificada e interrompida.

Como se estivesse numa guerra real, o Ministro da Defesa negocia a criação de corredores humanitários para retirar vítimas. O Peru, sob estado de emergência, aguarda. Dina Boluarte obteve do Congresso uma moção de apoio, mas cresce a pressão para que renuncie como única solução para o impasse.

As Forças Armadas intervieram na Universidade de San Marcos, a principal do país, alegando solicitação da reitora. Os estudantes se estruturam para realizar uma nova Marcha de los 4 Suyos, numa homenagem às quatro regiões em que se dividia o império Inca no século XVI e repetindo a que se realizou no ano 2000 pouco antes da queda e fuga de Fujimori.*     

 

 

 

Homem de terno e gravata com chapéu na cabeça

Descrição gerada automaticamente

Pedro Castillo, presidente do Peru, cassado em 7/12/2022, com seu sombrero chotano

 

Pessoas com instrumentos musicais e microfone em local iluminado

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Lima, janeiro/2023. Com a bandeira peruana nas mãos a mulher desafia as tropas que no governo Dina Boluarte já mataram 62 civis nos primeiros 45 dias de mandato (imagem – www.vozdeamerica.com)

La presidenta de Perú, Dina Boluarte, toma juramento a su primer ministro, Pedro Miguel Ángulo Arana, durante una ceremonia en el Palacio de Gobierno de Lima (Perú). La presidenta de Perú, Dina Boluarte, toma juramento a su primer ministro, Pedro Miguel Ángulo Arana, durante una ceremonia en el Palacio de Gobierno de Lima (Perú). — Paolo Aguilar / EFE

Ministro faz juramento ao tomar posse ajoelhando perante o crucifixo e a presidente Boluarte, como se no século XII estivesse.

*. Para melhor compreender a situação peruana, vide textos anteriores deste site:

https://www.mundoseculoxxi.com.br/2022/04/2022-04-09-peru-em-nova-encruzilhada/

https://www.mundoseculoxxi.com.br/2020/11/2020-11-18-a-tragedia-politica-peruana/

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