Índia, um gigante submetido a Narendra Modi
Vitor
Pinto
Escritor.
Analista internacional
Rahul
Gandhi, reunindo as energias restantes de seus 52 anos de idade, enfrentou
durante três meses uma longa caminhada por 3.500 km, encerrada no início de
novembro último em Punjab ao norte, no sopé do Himalaia de onde se estende a
Caxemira indiana. Foi uma vatra (peregrinação), feita em nome da unidade
da Índia e em busca da redenção política após uma década de derrotas eleitorais
do seu Partido do Congresso para o Barathiya Janata Party – BJP – do 1º ministro Narendra Modi que dessa
feita e pela primeira vez se calou. A épica empreitada aconteceu sob a marca da
harmonia religiosa e da recuperação da prosperidade perdida desde que o hindutva
- sinônimo do nacionalismo radical hindu - se impôs especialmente durante o
governo atual eleito com maioria absoluta em 2019 para um novo período de cinco
anos. Ao longo do caminho Rahul dedicou-se a conversar e a ouvir o povo que nas
ruas, no campo e nas casas o recebeu.
Sempre
atingida pelo signo da violência que está na essência desse imenso país, a
família de Rahul já assistiu ao assassinato da sua avó Indira Gandhi e do pai
Rajiv. O único a ter um destino natural foi o bisavô Jawaharlal Nehru (todos
como 1º Ministros). A execução de Mohandas Gandhi – de outra família - por um
ativista Sikh em Delhi 75 anos atrás desencadeou mais uma das costumeiras
chacinas de base religiosa ou racial, então contra os brâmanes que encabeçam o
regime de castas em que se divide a sociedade. O P. do Congresso, de centro-esquerda,
cuja proposta é baseada na equidade, foi governo por diversas vezes desde a
independência em 1947. Os muçulmanos (até então todos nascidos na Índia e
convertidos ao islã) que aí vivem têm sido literalmente massacrados pelo BJP no
poder e não há esperanças de grandes melhorias com uma eventual troca de
governo. Afinal, não esquecem a administração de Rajiv Gandhi na década dos
anos 80, que favoreceu ativamente a maioria hindu.
Na Índia
nada é pequeno
Agora
tudo se concentra nas megaeleições de abril de 2024 quando 900 milhões de
indianos voltarão às urnas. Como o voto é opcional, estima-se que – a exemplo das
últimas eleições em 2019 - comparecerão cerca de 600 milhões (o 1/3 restante
compõe-se basicamente dos mais pobres). Então, a ultradireita perdera apoio
popular devido ao fracasso de suas propostas econômicas e para vencer novamente
só restara o mesmo caminho de costume: uma guerra com o Paquistão para desviar
o foco. Um incidente com 40 vítimas indianas na fronteira da Caxemira, que Modi
considerou ser um ato de terrorismo paquistanês, foi o suficiente para
transformar a campanha eleitoral numa resposta ao “insulto à honra da Índia”.
Contudo,
a Índia é uma terra de absurdas variedades e desigualdades. O sistema de castas,
abolido desde 1947, continua sendo a base da vida diária. Há os brâmanes (sacerdotes,
professores, filósofos: 6,3% dos indianos); os Xatrias (militares,
administradores) e Vaixas (comerciantes, ambos com 24,7%); os Sudras
(operários, artesãos, camponeses com 52%) e os sem-casta ou Dalits (impuros,
lidam com lixo, cadáveres, correspondem a 17%). Aí nasceu o conceito das
políticas inclusivas ou cotas, e hoje as há para qualquer ramo ou atividade.
A
força de trabalho chegou a um ponto em que somente 7% é formal, enquanto 93%
estão na informalidade, executando serviços por tarefa, sem contrato nem férias
e muito menos proteção social. De acordo com K. Hemalatha, presidente da
Central de Sindicatos Indianos em visita recente ao Brasil, após dezessete
grandes greves nos últimos 15 anos, a de 2018 teve participação de 200 milhões
de trabalhadores reivindicando desde um salário-mínimo nacional até a oferta de
empregos regulares. O BJP, ao contrário, aprovou leis que permitem contratos curtos,
com poucas semanas de duração. Vigora um Sistema de Distribuição Pública de
alimentos (PDS), para variar o maior do mundo no gênero, com 550 mil “lojas de
racionamento” vendendo principalmente trigo, arroz e açúcar a preços
subsidiados para 40 milhões de famílias cadastradas. O sistema opera sob
descrédito geral, sujeito a corrupção intensa pelos intermediários, e com baixa
qualidade.
Quem
visita as cidades desse país fica impressionado com o seu rápido progresso e
com suas ruas e avenidas. Bangalore, o “Vale do Silício indiano”, p.ex., com
seu metrô sempre em obras, é uma grande confusão de motos e riquixás em largas
avenidas sem qualquer mão a obedecer no caótico trânsito que só flui graças à
mão invisível de Shiva ou de qualquer uma das mais de 330 milhões de divindades
adoradas no país (afora as cerca de 190 milhões de vacas, igualmente sagradas
para a religião hindu). O forte impulso à economia veio com a chegada das
multinacionais estimuladas pelo pagamento de baixos salários a uma mão de obra
abundante e pela disponibilidade de um imenso mercado interno, além da
desregulamentação da força de trabalho e conhecimento generalizado do idioma
inglês. Outra vantagem é o fuso horário; enquanto os executivos dormem no
ocidente, os indianos produzem
A
nação asiática possui uma população de 1,4 bilhão de habitantes e a incrível densidade
demográfica de 435 pessoas por km2, muito maior que a de países similares em
tamanho como China (149/km2), Brasil (26/km2) ou Austrália (3,5/km2). A
migração para as cidades tem aumentado, mas ainda sete de cada dez indianos
vivem na zona rural, dedicados a práticas agrícolas. Duramente atingida pela
pandemia da covid-19, a Índia é o 2º país com maior número de casos - 44,7
milhões -, inferior somente aos EUA. No período mais crítico, o hábito hindu de
cremar seus mortos fez com que se multiplicasse sem controle a quantidade de
piras pelas praças, beiras de rio e por onde quer que fosse possível ateá-las.
Radicalismo
antimuçulmano
A
Índia de Narendra Modi detém o duvidoso título de maior “democracia neofascista
do mundo”, superando a regimes como os de Víctor Orbán na Hungria, Receep
Erdogan na Turquia, Vladimir Putin na Rússia ou ideologicamente fascistas como os
de Jair Bolsonaro (até janeiro de 2023) no Brasil, Benjamin Netanyahu em Israel,
Giorgia Meloni na Itália, entre outros. O termo “democracia” se deve ao fato de
que as eleições indianas não têm similar no globo em função de seus gigantescos
e inigualáveis números. Talvez por reconhecimento a Trump, Modi adotou o slogan
India First, depois complementado com “Muslims for them, Indian for
us” (Muçulmanos para eles, Indianos para nós). Desde 2019 o BJP assumiu
sozinho um governo de ultradireita com um tremendo inimigo: os 14% da população
que é muçulmana, ou seja, 200 milhões de indivíduos. A ideia já havia sido
posta em prática quando da independência em 1947, ocasião em que a retirada dos
britânicos provocou uma migração abrupta e em massa de islâmicos para o também recém-criado
Paquistão e de hindus e sikhs para a Índia. Morreu pelo menos 1 milhão de
pessoas em tempos nos quais os trens enviados de cada lado para o outro
circulavam entupidos de corpos.
Modi
já era conhecido no ramo. Como ministro-chefe do estado de Gujarat ao final de fevereiro de 2002 foi acusado de tolerar e estimular a violência que
resultou em até 2.000 vítimas, a grande maioria muçulmanos queimados vivos ou
assassinados com arma branca por hordas de hindus que queriam vingar a morte de
alguns dos seus no incêndio de um vagão de trem. Num dos primeiros crimes do
que foi diagnosticado como “Terrorismo de Estado”, em Sardarpura uma multidão
jogou gasolina e tocou fogo em uma casa que abrigava dezenas de muçulmanos,
incinerando a todos enquanto dançava em volta comemorando o feito. Durante a
investigação dos massacres a entrada de Modi nos EUA foi vedada por muitos anos.
Desde 2019 as emboscadas e execuções de
muçulmanos se tornaram tão comuns na Índia que têm sido consideradas “o novo normal”
pela Suprema Corte de Justiça dando sustentação aos tribunais controlados por
adeptos do BJP. São grupos de vigilantes antimuçulmanos com estrutura
paramilitar e que se dizem protetores das vacas supostamente sendo abatidas e comercializadas
por seguidores do Islã no mercado negro.
Na Caxemira indiana, o único estado com maioria
populacional muçulmana, uma nova lei recentemente anulou de maneira unilateral sua
autonomia limitada que proibia a compra de terras por indianos. A polícia de
Modi tem detido e eliminado ativistas islâmicos locais e bloqueado com muita
frequência e de maneira seletiva o acesso à internet. O executivo fez aprovar a
nova lei de cidadania que facilita a nacionalização de sikhs, budistas,
migrantes cristãos do exterior, mas exclui os muçulmanos ao aplicar ao tema pela
primeira vez um critério baseado na religião. A Caxemira paquistanesa, que abriga
4,5 milhões de pessoas em 32% do território (frente a 53% da área indiana - com
12,5 milhões de habitantes - mais 14% da área chinesa), tem a curiosa
particularidade de ser em boa parte financiada com contribuições de migrantes “Mirpuri”
na Inglaterra (Birminghan, Leeds e outras cidades acolhem a diáspora de Mirpur
na Caxemira) entre os quais, a exemplo da terra natal, os casamentos são em geral
forçados e consanguíneos.
Num dos mais intensos protestos contra a Lei da
Cidadania a violência estourou em Nova Delhi em 2020 com a execução de dezenas
de pessoas, num incidente estimulado por políticos do BJP e sem intervenção da
polícia para impedir os ataques das turbas hindus.

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